Diário de Oxford - CAPÍTULO 5 (Folha.com, 15/12/2014)

Conversa-se muito em Oxford. E, quando o interlocutor é nativo, o cardápio é conhecido: apresentações; comentários sobre o estado do tempo; e quando a intimidade começa a ganhar forma e o nosso sotaque soa exótico, o interlocutor pergunta: “E você vem de onde?” (Um conselho: nunca esconda o seu sotaque de origem e jamais tente imitar o sotaque inglês; só os ingleses falam como ingleses).

Respondo: “Portugal.” O outro abre um sorriso, imagina dias infindos de sol, bom vinho, comida mediterrânica – e conclui: “Ah, eu sempre adorei a Europa.”

Em dez segundos, aqui está a prova definitiva de que a Inglaterra e a União Europeia são um casamento de conveniência, não de amor genuíno. Para os ingleses, a Europa sempre foi, e sempre será, aquele continente estrangeiro. 

 

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Os judeus existem? (FSP, 9/12/2014)

Será que os judeus existem? Melhor: será que faz sentido falar de judeus no século 21? Sim, certo: quem nasce de mãe judia é considerado membro do clube para todo o sempre. Ou, pelo menos, até se converter a um credo religioso distinto.
 
Mas, sejamos honestos, Israel foi fundado em 1948. Os critérios sentimentais e nacionalistas do passado são hoje um anacronismo e, pior, uma forma de racismo.
 
Israel não deveria ser um "Estado judaico" da mesma forma que os Estados Unidos não são o "Estado anglo-saxônico protestante". Confundir matérias religiosas com critérios políticos e republicanos é um fardo que os "israelenses" (e não os "judeus") devem abandonar.
 
Eis, em resumo, a mensagem de Shlomo Sand na polêmica do momento.

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Diário de Oxford - Capítulo 4 (Folha.com, 1/12/2014)

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Caminho pela Pusey Street e vejo um rapaz de 18 ou 19 anos que pedala na minha direção. Só que o rapaz não me vê: na calçada, passam duas donzelas da mesma idade. O intrépido ciclista acompanha o movimento de ambas, rodando a cabeça para trás, ao mesmo tempo que pedala em frente. Má combinação. 

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Michel, O Grande

Há muitos, muitos anos, assisti a uma cerimónia dos óscares em que passou um filminho de homenagem ao cinema. E, lá pelo meio, havia uma melodia que me ficou gravada na cabeça como ferro em brasa. Se algum talento tenho, e familiares e amigos sabem disso, é identificar de imediato uma banda sonora. Até porque uma parte da boa música erudita do século XX - de Miklós Rózsa ao actual Alexandre Desplat - está nas telas. Mas aquele tema - meu Deus, aquele tema - simplesmente não aparecia no radar. 

O tempo passou. Apenas de ouvido, aprendi a tocá-lo ao piano, sem saber o que estava a tocar. 

Um dia, em Lisboa, apanhei um táxi. E a música voltou para me assombrar. Com o coração aos saltos, perguntei ao motorista que CD era aquele. Ele disse-me que era rádio, não CD. Falamos de tempos pré-iPhone; nenhum "app" me poderia salvar. E eu via a música escapar-me pelos dedos como Zhivago viu a sua amada desaparecer no final do filme homónimo. 

Passei a torturar família, amigos, conhecidos. Tocava a música, assobiava - e eles, desolados, confessavam a sua ignorância. Cheguei até a envolver a minha professora de piano nessa busca; ela falou com colegas. Nada. A música só existia na minha memória e eu, como um Proust angustiado, às vezes acordava com ela. Na memória, apenas na memória. 

Hoje, saí para a minha caminhada matinal e parei no café do costume: o "Maison Blanc", para capuccinos e croissants (sim, no plural). Tomei o pequeno-almoço, li a imprensa nativa. Paguei.

No momento em que abri a porta da rua para me fazer à estrada, a música soou nas colunas do café. Mas soou de forma diferente - como se fosse tocada na sua versão original. Petrificado, gritei: "Mas isto é Michel Legrand!"

 Voltei para trás - como quem recupera um amor de 20 anos de buscas incessantes - e perguntei ao empregado: "Que música é esta?" 

Ele, e a restante clientela, olhou para mim como se eu tivesse fugido de um asilo psiquiátrico. Repeti a pergunta quase em lágrimas, temendo a resposta ("Não sei, é rádio.") 

Não era rádio. O rapaz, atordoado e talvez assustado, foi confirmar o nome. Era Michel Legrand, sim. E o filme, que nunca vi, intitula-se "Les parapluies de Cherbourg". 

Suspirei fundo. E, mergulhando novamente no frio siberiano de Oxford, senti o que os alpinistas devem sentir quando chegam ao cume de uma longa escalada. O que é verdadeiramente nosso, a nós regressará um dia.

 

Vida breve (FSP, 25/11/2014)

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“Vida intensa e breve, pensou a lebre, correndo sobre as ervas do mundo”. Roubo essas linhas ao poeta português José Agostinho Baptista porque elas são a trilha sonora dos meus dias. Ou, pelo menos, desses últimos anos. Caminho para os 40. E, com uma nitidez arrepiante, sinto que o tempo acelera como nunca. Explico: aos 10, aos 20, o tempo passava com um ritmo mais lento. O ano académico era longo. As férias de Verão também. E os dias, cada dia, tinham minutos que duravam horas e horas que duravam semanas. 

Subitamente, os dias encolheram. E, com os dias, as horas e as semanas. Como explicar o fenómeno?

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Mulheres que apanham (FSP, 18/11/2014)

Todas as mulheres gostam de apanhar. Só as neuróticas é que reagem. Assim falava Nelson Rodrigues. E assim falo eu, em jeito de provocação, ao meu auditório feminino lá em casa. 

Sem sucesso: rodeado por mulheres mais inteligentes do que eu, elas tratam de responder às provocações com outras provocações de igual calibre, irreproduzíveis num jornal de família. 
Eu, sovado e acabrunhado, encerro a discussão, fugindo para a primeira premissa: “Estão vendo? Neuróticas, todas vocês.” 

Brinco, claro. Mas depois, com o café da manhã, vou lendo notícias que ressuscitam o velho Nelson e conferem “gravitas” aos seus aforismos.

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Diário de Oxford - Capítulo 3 (FSP, 17/11/2014)

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Oxford tem vários clubes para quem gosta de desporto. Mas há limites: 13 anos atrás, quando aqui estive pela primeira vez, os amantes do remo levantavam-se a horas obscenas e depois rapavam frio de morte na água e na neblina.

Recusei a tentação e optei por outra modalidade fisicamente exigente, mas com horários mais apropriados. Inscrevi-me no Clube dos Provadores de Vinho e, quinzenalmente, na companhia dos meus confrades, havia sempre 8 garrafas (4 de vinho branco, 4 de vinho tinto) para serem provadas com os seus vagares.

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Como vencer eleições (FSP, 11/11/2014)

Que delícia: tenho passado os últimos tempos na companhia de Quintus Tullius Cicero. O nome talvez acenda uma luz na cabeça do leitor. Cuidado: é a luz errada. 

Quintus era o irmão mais novo do famoso Marcus Cicero. E em 64 a.C., quando Marcus se candidatou ao lugar de cônsul (o mais importante cargo no “cursus honorum” da República Romana), Quintus decidiu escrever um pequeno manual – pelo menos, a maioria dos especialistas atribui-lhe a autoria – onde explicava ao irmão como ter sucesso em política. 

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Diário de Oxford - Capítulo 2 (FSP, 3/11/2014)

Que tristeza: cheguei a Inglaterra há três semanas e ainda não vi Stephen Gough por aí. Quem? Falo do Caminhante Nu, que percorre as ilhas britânicas de norte a sul e que já passou anos no presídio por causa disso.

Agora, cansado das agruras policiais, Stephen levou o caso ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que não se comoveu. Os juízes ordenaram decoro e vestes. O caminhante não se conforma.

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Eça Agora! (FSP, Ilustríssima, 2/11/2014)

Existem dois tipos de escritores neste mundo. Os primeiros são como as chuvas - vêm e vão, ao sabor do tempo. Os segundos nunca nos deixam. Resistem a tudo - à estupidez dos literatos, à inveja dos pares, à passagem dos anos.

Eça de Queiroz (1845-1900) pertence ao segundo grupo: no século 19, só Camilo Castelo Branco (1825-90) rivaliza com ele. Mas a influência de Eça é incomparavelmente mais profunda: ele forjou uma linguagem nova para as gerações vindouras e praticamente fixou na memória dos portugueses o século 19 como referência perpétua para os séculos 20 e 21.

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Diário de Oxford (FSP, 20/10/2014)

 

Em Oxford, sinto-me em casa. Não pela trilogia óbvia de livros, cabeças fecundas e Laphroaig. Mas pela quantidade de pessoas que, caminhando pelas ruas, têm o hábito saudável e belo de falarem sozinhas. Algumas sorriem, outras mostram esgares de preocupação. Mas ninguém repara, ninguém critica, ninguém se transforma em bovino a olhar para o palácio. Há o entendimento implícito de que um diálogo está em curso entre duas pessoas com os mesmos gostos, os mesmos interesses, as mesmas efabulações. 
 

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"IDEIAS CONSERVADORAS" NO BRASIL: DATAS E LOCAIS

Dia 2 de Agosto, 14.30h - FLIP, Paraty, Casa Folha.

Dia 4 de Agosto, 16h - Debate-Sabatina, MIS - Museu da Imagem e do Som, São Paulo.

Dia 4 de Agosto, 18.30 - 21.30h - Lançamento do livro As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e Reacionários (Três Estrelas), Livraria da Vila, Pátio Shopping Higienópolis, São Paulo. 

 


Os macacos da vaidade (FSP, 13/5/2014)


Tenho os meus preconceitos como qualquer pessoa civilizada. Falo de preconceitos em sentido rasteiro, não em sentido conservador e clássico como o conjunto de tradições que sobreviveram aos “testes do tempo” e por isso mostraram a sua utilidade. 

Não gosto de senhoras que usam e abusam do calão (em público, não em privado). Considero o exibicionismo material – carros, jóias, roupas de grife etc. – uma forma repugnante e subdesenvolvida de conduta, comparável a cuspir no chão, usar palito ou cutucar cera do ouvido. E tendo a manter uma distância higiénica de criaturas entre os 12 e os 17 anos, ou seja, membros desse lamentável período que designamos por “adolescência”. Não sei se a velhice vai limar algumas dessas arestas. Por enquanto, os meus instintos preconceituosos são mais fortes do que eu. 

Mas existe um preconceito que, filosoficamente falando, sou incapaz de partilhar, sequer entender: o preconceito racial. A ideia de que a pigmentação da pele tem qualquer relevância moral ou epistemológica é-me tão incompreensível como exibir iguais preconceitos em relação à cor dos olhos ou à forma do cabelo (excetuando, claro, o caso perdido de Donald Trump). 

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