JÁ NAS LIVRARIAS DO BRASIL

Há muito não se publicava um pequeno grande livro como este (...) Que revolucionários e reacionários tenham a chance de aprender com a generosa e amigável exposição de Coutinho. E que todos nos lembremos de que o conservadorismo é, antes de tudo, um humanismo. 

Reinaldo Azevedo, colunista da Veja e da Folha de S. Paulo

 

capa Ideias Conservadoras.jpg

 

«Conservadorismo: quando alguém é acusado de sofrer da maleita, não se pretende afirmar que a infeliz criatura adere a um conjunto válido e racional de ideias ou valores que definem uma ideologia política. Ao conservador não se aplica o mesmo tipo de tolerância ética ou epistemológica que se concede ao liberal, ao socialista e até, Deus seja louvado, ao comunista impenitente.

O conservador é outra história. Um imobilista, dirão alguns: alguém que se opõe à mudança, a qualquer mudança, porque assim determina a sua viciosa personalidade. Ou então é um reaccionário, dirão outros: alguém que não apenas se opõe à mudança, a qualquer mudança, como pretende revertê-la de forma a regressar a um paraíso perdido que, aos olhos nostálgicos do reaccionário, é simplesmente o avesso de um mundo que se encontra do avesso.

Para o fanatismo progressista, o conservador não é uma alma que persiste no erro. É, resumidamente, um herege. E não será de excluir, seguindo as lições do preclaro Theodor Adorno em The Authoritarian Personality (1950), que se escondam outros vícios por detrás da heresia: uma personalidade com inclinação para o autoritarismo e, já no século XX, para as experiências fascistas que destroçaram a Europa. Recapitulando: conservador, imobilista, reaccionário, autoritário, fascista. Para quê perder tempo com pormenores?

Este livro procura perder tempo com pormenores. Porque se Deus está nos detalhes, o demónio também está. As caricaturas que usualmente distorcem o conservadorismo que aqui se apresenta só podem ser explicáveis, mas não justificáveis, por ignorância ou má-fé.»

 

     Trecho de As Ideias Conservadoras - Explicadas a Revolucionários e Reacionários

manuscritodolivro

Tudo é vaidade (FSP, 8/4/2014)

Qual a pergunta mais idiota que é possível ouvir quando temos uma biblioteca generosa? Exacto, leitor: “Você já leu tudo isso?” 

Engolimos em seco. Respiramos fundo. E depois explicamos, pela décima, centésima, milésima vez que uma biblioteca não é uma colecção de livros lidos. As bibliotecas são feitas de livros que lemos no passado, que consultamos no presente e que um dia, talvez, leremos no futuro. Ou que alguém lerá por nós. 

[ continua aqui

 

Queimando hereges (FSP, 1/4/2014)

A esquerda gosta de romantizar o povo. Exceto quando o povo é pouco romântico e expressa o que realmente pensa sobre o mundo.

Uma enquete do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) horrorizou algumas consciências "finas" com as opiniões do povo sobre a violência contra as mulheres. Simplifico: dentro de casa, é feio bater. Mas, fora de casa, quando o crime é sexual, as mulheres têm culpa no cartório. Números: 65% dos brasileiros concordam que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Um aiatolá no Irã não diria melhor. E 58,5% consideram que "se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros". Um aiatolá no Irã, idem.
 
É justo concluir que, para a maioria dos brasileiros, o ideal seria que as mulheres usassem burca. O clima brasileiro não permite essas mumificações? Isso não é desculpa. Quem aguenta o calor persa, também aguenta o calor tropical.

[ continua aqui


 

A voz da razão (CM, Março de 2014)

Baixar a bola

Existe no jornalismo brasileiro uma expressão que aprecio: ‘levantar a bola’. Não, não é sobre futebol; é sobre a submissão cobarde de um jornalista que se limita a ‘levantar a bola’ para que um político a possa chutar como quiser. Em Portugal, basta passar os olhos pelas televisões para comprovar a popularidade da prática: o jornalista não existe para questionar o político-comentadeiro com a respectiva folha de serviço. Ele apenas ‘levanta a bola’, deixando o interlocutor à solta com as suas fantasias e ‘inverdades’.

José Rodrigues dos Santos não entrou no jogo. E fez perguntas a José Sócrates para as quais o dito cujo ‘não estava preparado’. O que se percebe: nós só nos preparamos quando existe a possibilidade de não termos um espantalho à frente. Ao recusar esse papel, Rodrigues dos Santos mostrou que ‘levantar a bola’ é uma forma triste dos seus colegas baixarem a deles.

 

Época de saldos

As sondagens para as europeias oferecem espectáculos dignos de nota. O primeiro é a vitória modestíssima do PS sobre a coligação PSD/CDS, um fenómeno sem paralelo na Europa da austeridade. Mas existe uma comédia adicional que não cessa de me divertir: o desaparecimento da extrema-esquerda e o desvario que corre por aquelas bandas.

O Bloco, que em 2009 elegeu 3 eurodeputados, corre o risco de não eleger nenhum. Um cenário deprimente que levou a direcção bicéfala a incluir na lista ‘independentes’ acéfalos, na esperança lorpa de comover o público com alguns adereços de enfeite.

No Livre, a coisa não melhora. E Rui Tavares, que provavelmente só regressará a Bruxelas como turista, abriu o partido a eleições ‘primárias’, uma forma primária de mendigar a simpatia da sua tribo. 

Sem discurso ou alternativa para a crise, a extrema-esquerda está hoje em saldos. Para evitar a liquidação total.

 

Uma farsa

Parece que existem ‘divergências insanáveis’ entre o PS e o PSD. Com muito esforço, não as consigo ver. Verdade que Seguro critica a ‘austeridade’ e, nas viagens pela província, usa a descida do IVA na restauração para enfeitar a lapela. Mas, com rigor, que ‘divergências insanáveis’ serão essas? 

Para começar, não são ‘divergências’ sobre o Tratado Orçamental: PS, PSD e CDS assinaram-no sem hesitar e Seguro, tal como Passos e Portas, jura cumprir os limites do défice e da dívida com fanático aprumo. E agora, pela boca de Óscar Gaspar, a confissão que faltava: no governo, os socialistas não vão repor os cortes em salários e pensões que o actual governo praticou. A ‘situação do país’, de facto, não o permite. 

A menos que as ‘divergências insanáveis’ se prendam com questões de vestuário, entra pelos olhos de um cego que a guerra entre PS e PSD é uma farsa eleitoral muito mal amanhada.

 

Abusos

Não li e não gostei de nenhum dos projectos partidários para ‘regular’ a cobertura mediática das campanhas eleitorais. Razão simples: não compete a nenhum partido enfiar a foice na seara das redacções. Isso é constitucionalmente problemático? Admito. Mas também admito que os nossos tribunos já deviam ter removido do artigo 113º a alínea b) do estapafúrdio ponto 3. Onde se garante ‘igualdade de oportunidades e de tratamento das diversas candidaturas’.

Quem decide o ‘tratamento’ mediático das candidaturas a concurso não é, logicamente, quem participa no concurso. Em sociedades livres, são os profissionais do ramo que, dotados de massa cinzenta, filtram e apresentam o que consideram relevante para o seu público.

Se os políticos não gostam do arranjo, problema deles. No limite, podem sempre mudar de profissão e aplicar nas redacções os delírios igualitários que cozinham no Parlamento.

 

Chicotes

Provocou forte histeria um manifesto de 70 ‘personalidades’ a pedir a reestruturação da dívida. Não percebo porquê. Para começar, é normal que em democracias pluralistas as pessoas assinem os manifestos que entendem. E, para acabar, não foi por causa do manifesto que os juros deixaram de descer. E porquê?

Porque os ‘mercados’ sabem que o essencial da nossa política passa por Bruxelas (e Berlim), não pelas loucuras de Lisboa. E o que é válido para o manifesto, é válido para o ‘consenso’: depois de PSD, CDS e PS terem assinado o pacto orçamental, é indiferente se Passos e Seguro se sentam à mesma mesa para conversar ou jogar às cartas. O chicote sobre as nossas contas públicas não vai conhecer cores partidárias no futuro. Lamentável esta perda de soberania?

Em teoria, talvez. Na prática, e com três falências em 40 anos, talvez não seja má ideia que haja alguém que governe quem nos governa.

 

Ditaduras

As europeias aproximam-se e o PS começa a dar sinais de preocupação e delírio. Francisco Assis, em atitude chocarreira que não lhe fica bem, comparou as políticas do actual governo com as políticas da ditadura. Seguro afinou pela mesma cartilha: as críticas de que foi alvo pela sua palestra em Londres fazem lembrar as práticas do Estado Novo. Que denunciava como traidores à pátria todos aqueles que discordavam do dr. Salazar. 

Não vale a pena sublinhar o óbvio: comparar um governo democraticamente eleito com um regime autoritário devia envergonhar esta parelha. Mas se isto não envergonha Assis ou Seguro, seria pelo menos aconselhável ouvir do PS as medidas alternativas que propõe para cortar despesa e honrar os compromissos internacionais.

Sobre isto, nem uma palavra. Ou talvez tenha havido e nós não sabemos. No fundo, no fundo, o lápis azul da censura nunca foi meigo com a oposição.  

 

A arte da fuga (FSP, 24/3/2014)

Juro que já tinha pensado no assunto: o mundo está saturado de "apps" ridículos e inúteis que fazem da vida cotidiana um jardim infantil para adultos. Mas faltava um – apenas um - que eu instalaria no meu iPhone sem hesitar: um aplicativo qualquer que me avisasse a tempo e horas sempre que um personagem indesejado estivesse na minha área.
 
Imaginava o filme: saía para jantar. Escolhia dois destinos possíveis. E depois o celular informava que no primeiro também estava aquele colega débil mental que tem uma paixão verborrágica por Fórmula 1. Isso permitiria decidir imediatamente pelo segundo restaurante, evitando o encontro indigesto. Seria tão difícil assim inventar uma utopia tecnológica dessas?

[ continua aqui ]
 

A voz da razão (CM, Fevereiro de 2014)

Pobrezas franciscanas

As europeias já têm nomes e rostos. Pelo PSD, Paulo Rangel. Escolha previsível e acertada: foi um bom eurodeputado e é uma máquina particularmente eficaz na grande feira eleitoral. Mas Francisco Assis pelo PS? Ponto prévio: Assis é uma das boas cabeças que o Rato tem. Mas uma boa cabeça não faz um bom candidato, como se vê pelo currículo do senhor e pela retórica floreada e redonda que ele exibe semanalmente na tv. Será que Seguro não viu o óbvio? Ou simplesmente não resistiu às pressões da sua tribo, a começar pelas de Assis, para apresentar um candidato qualquer de acordo com as conveniências dos outros?

Seja como for, nenhuma das hipóteses é tranquilizadora. Porque dia 25 não será Assis a ir a votos. Será Seguro. Vencer abaixo de uma fasquia respeitável – 40%, para sermos bondosos – será de uma pobreza fatal e literalmente franciscana. 

 

Causas fracturantes

Miguel Frasquilho, um homem sensato, defendeu junto da ‘troika’ que um programa cautelar era, digamos, mais cauteloso. Pouco depois, desmentiu o que tinha dito. Como explicar a esquizofrenia?

Partindo do pressuposto de que Miguel Frasquilho não tem um irmão gémeo, é fácil imaginar o inevitável telefonema partidário para apertar as orelhas do caloiro: se a ‘troika’ nos deixa a 17 de Maio e se há europeias a 25, é preciso apresentar uma ‘saída limpa’ como a grande vitória da temporada. Um desejo de Passos (e de Portas) que está em plena sintonia com os parceiros europeus, a começar pela Alemanha, e respectivos eleitorados, pouco dispostos a financiar os calaceiros da praxe. 

O episódio Frasquilho, na sua inocência, revela um fenómeno mais profundo: começa a crescer no interior do governo a divisão entre os que olham para o país e aqueles que preferem olhar para as eleições.

 

A carta de Tordo

Provocou comoção nacional a carta que João Tordo escreveu ao pai. Tudo porque Fernando Tordo, aos 65 anos, resolveu abandonar a pátria e rumar para o Brasil. Em busca de trabalho. Sobre os aspectos pessoais da missiva, nenhum comentário. O problema está nas passagens políticas dela. Para João Tordo, a culpa desta imigração forçada está no actual governo e na ‘destruição’ que ele promoveu em três anos de ‘austeridade’. Curiosamente, não há uma palavra do filho sobre os sucessivos governos que, pelo menos desde 1995, foram alimentando uma trajectória imparável de dívida – no Estado, nas empresas, nas famílias – que só podia terminar como terminou. Na bancarrota. Do país e do progenitor.

Se removesse as palas ideológicas e refreasse o sentimentalismo, o filho saberia que na imigração do pai não houve inocentes. E que, da esquerda à direita, toda a gente contribuiu para o levar à Portela.  

 

Massa cinzenta

As celebrações do 25 de Abril sempre foram pretextos de humor. Este ano não houve excepções. Primeiro, ponderou-se financiar a coisa com recurso ao mecenato, uma ideia peregrina que rapidamente caiu na galhofa. Depois, os delírios continuaram com umas chaimites enfeitadas com cravos (da aberrante Joana Vasconcelos) e um “graffito” alusivo ao tema (uma forma de celebrar a liberdade pela institucionalização do vandalismo). Não sei se alguém convidou o Circo Chen para uma apresentação no Parlamento. Mas na impossibilidade de termos umas comemorações com um mínimo de solenidade, a melhor proposta pertence ao PS, que aconselhou os deputados a irem dar sangue. Claro que o PS podia ter sido mais ambicioso, convidando os deputados a doarem parte dos seus cérebros também. A julgar pelas propostas que sairam daquelas cabeças, há muita massa cinzenta que não lhes faz qualquer falta.

 

Comédias

A Comissão Europeia partilhou há dias um relatório onde 90% dos portugueses consideravam o país completamente corrupto. Uns respeitáveis 36% confessavam que a corrupção já os tinha atingido pessoalmente; e 60% afirmavam que neste país nada se faz sem a cunha ou a ligação partidária. Perante este retrato de miséria, o que andam as figuras gradas do regime a dizer por aí?

Comédias. O Presidente da República, na abertura do ano judicial, considerou a violação do segredo da justiça um dos problemas centrais do país. E a sra. procuradora-geral da República, que subitamente descobriu uma vocação para a arte, diz que tudo fará para que os quadros de Miró não saiam de Portugal. Faz muitíssimo bem. A julgar pelos números da própria Procuradoria-Geral da República, os casos de corrupção que tiveram desfecho judicial entre 2004 e 2008 nem chegaram aos 10%. O Ministério Público tem mesmo que ocupar o tempo com outras coisas.

 

Mirones

O pintor Miró incendiou a parolice nativa. A parolice e a ignorância, que usualmente andam de mãos dadas. Eis o raciocínio: se o Estado tem 85 telas de Miró, não seria melhor ficar com elas? 

Não, não seria. E isso nada tem a ver com a importância artística do catalão (que os parolos, obviamente, desconhecem). A razão é outra: 85 telas de Miró precisam de um espaço relevante para as receber. E por ‘espaço relevante’ pretende dizer-se um museu capaz de integrar Miró num acervo igualmente rico em arte contemporânea, até porque o pintor é incompreensível sem o diálogo que estabeleceu com outros nomes (os ‘fauves’, Picasso, etc.). Portugal não tem esse espaço (e o caso Berardo dispensa comentários). Por si só, as 85 telas têm diminuta capacidade de atracção cultural; e não justificam a meia dúzia de gatos pingados que viriam à paróquia espreitar mais uma das nossas excentricidades falidas. 

 

Profissionais e amadores (FSP, 4/2/2014)

Uma amiga minha, mãe solteira, fez-me um pedido dramático: se ela não sobreviver a um linfoma, estarei disposto a cuidar do filho de oito anos? Caí do céu: pela doença e pela responsabilidade do pedido. Mas primeiro concentrei-me na doença: que dizem os médicos? Que tratamentos existem? Que perspectivas de cura?
 
Ela respondeu-me que ainda não sabia. Mas os sintomas - gânglios linfáticos inchados, fadiga extrema, febre persistente etc.- apontavam para o pior. Ela própria, furando noites e noites de insônias, lera a respeito na internet e até conversara com vários doentes nos fóruns respectivos. Gente com os mesmos sintomas, a mesma doença, os mesmos terrores futuros.
 
Voltei a cair do céu. E, antes de aconselhar ajuda psiquiátrica, perguntei com medo: e que tal esquecer a internet e consultar um médico verdadeiro? Um daqueles personagens que fazem exames e avaliam resultados com base na "ciência" e na "experiência"?
 
E foi assim que o linfoma se transformou num caso tratável de mononucleose infecciosa. E foi assim que a promessa de quimioterapia, ou radioterapia, ou ambas, se transformou em simples repouso. E foi assim que eu conheci os "cibercondríacos", uma nova forma de hipocondria que a internet promoveu e disseminou.
 

[ continua aqui ]

A voz da razão (CM, Janeiro de 2014)

As esquerdas

As esquerdas não se entendem: o Bloco não quer o 3D; o 3D não quer o Livre; o Livre não se importa de ter o Bloco e o 3D, mas parece que avança sozinho. Eu, modestamente, propunha um quarto partido para tentar aglutinar os três. Mas não tenciono influenciar ninguém.

As discórdias das esquerdas, para além dos aspectos pícaros e da tradicional busca do tacho em vésperas de europeias, revelam apenas uma doença mais profunda: a ausência de uma "narrativa" com pés e cabeça para enfrentar e debelar a crise que nos caiu em cima. Das várias tribos, ouve-se de tudo: sair do euro; não sair; lutar contra a Europa federal; lutar a favor dela; não pagar a dívida; pagá-la aos bochechos ou com o dinheiro dos outros; e por aí fora, num carnaval de insanidades que só abismam o cidadão comum.

Pergunta fatal: se as esquerdas não se convencem umas às outras, por que motivo haveriam de convencer o país?

 

Os delírios da praxe

O país passou a semana a discutir as "praxes" e, sem surpresas, o delírio legalista tomou conta da tribo. Segundo especialistas diversos, é preciso legislação especificamente vocacionada para punir a selvajaria dos "veteranos".

Não vale a pena fazer comentários sobre esta espécie de pensamento mágico, segundo o qual basta redigir uma lei para alterar a realidade. Portugal, de facto, não tem emenda. Mas talvez não seja inútil lembrar duas evidências. A primeira é que acabar com as praxes boçais que existem por aí só depende da vontade das universidades. Infelizmente, e como se viu pela tibieza dos responsáveis, as universidades não tencionam perturbar o sadismo dos meninos.

Por último, leis para punir praxes violentas também já existem. Estão no Código Penal. Se os tribunais as aplicassem com regularidade, talvez pudessem fazer o serviço de que as universidades há muito se demitiram.

 

Seguro de vida

Dizem por aí que PS e PSD não se entendem. Discordo. Numa coisa Seguro e Passos estão de acordo: em Maio, ambos querem uma "saída limpa" à irlandesa. No caso de Passos, a coisa percebe-se: com eleições europeias logo a seguir, uma "saída limpa" é um importante triunfo político, mesmo que a racionalidade económica recomendasse um programa cautelar. Mas por que motivo Seguro vai nesta conversa, sobretudo quando o PS pode perder as europeias precisamente porque a "saída limpa" é o número de marketing que mais convém ao governo? 

Nesta fase do campeonato, o PS devia exigir a solução menos punitiva para a economia nacional – no curto e no longo prazos. O que talvez passasse por algum amparo dos parceiros europeus contra as incertezas dos mercados. 

Seguro prefere encostar Passos à parede com a chantagem lorpa da "saída limpa" à irlandesa. Passos, como sempre, agradece.

 

Marcelo

Passos Coelho não quer Marcelo Rebelo de Sousa como candidato às presidenciais. À primeira vista, a coisa causa espanto: Marcelo é um sucesso nas sondagens (mesmo contra António Costa) e, como comentador dominical, sempre tratou o governo com luvas de pelica. Como explicar a súbita (e assaz prematura) repulsa de Passos?

Alguns sábios garantem que Durão Barroso é o nome. Discordo dos sábios. O nome é, como sempre foi, Rui Rio: a única sombra que paira sobre a liderança de Passos e à qual ele quer conceder uma prateleira respeitável. Sobretudo se ainda acredita, como de facto acredita, que pode durar como primeiro-ministro até 2020. Restam duas perguntas: estará Rio disponível para esse papel de enfeite? E estará Marcelo resignado à sua condição comentadeira, não fazendo ao PSD aquilo que Sampaio fez ao PS, ou seja, avançar para dividir e reinar?

Duvido. De ambas. 

 

Necrofilias

O Panteão Nacional continua a ocupar os melhores espíritos. Depois da novela Eusébio, parece que Manuel Alegre e alguns "capitães de Abril" queriam Salgueiro Maia lá metido. Para comemorar os 40 anos do 25 de Abril com dignidade, com certeza. Mas, explícita ou implicitamente, porque as ossadas de Salgueiro Maia sempre serviam para vergastar o governo, que tem como único propósito desmantelar as conquistas desse radioso dia. 

Ponto prévio: tenho estima por Salgueiro Maia, um homem corajoso, sensato e bom. Mas começa a ser penoso ver a forma como se usa e abusa dos mortos para cumprir os objectivos políticos dos vivos. Respeitar os mortos, e sobretudo os nossos melhores mortos, significa deixá-los em paz e não usá-los como bandeiras macabras nas lutas partidárias. 

A necrofilia política que anda por aí seria razão suficiente para acabar de vez com a saloiice do Panteão.

 

O caso dos leitões

É o mistério da temporada: o que se passou na Meta dos Leitões com os congressistas do CDS-Algarve? Não sabemos. A primeira versão apresentava 15 comensais, 15 doses de leitão – e uma conta apimentada com 4 doses a mais. Esta primeira versão deu lugar a uma segunda: afinal, foi só uma dose a mais. Seja como for, os comensais não gostaram, protestaram – e o dono terá dito que ladrão que rouba ladrão tem direito a carregar no leitão. 

Agora, pela voz do dono, vem o desmentido: eram 15 comensais, comeram-se 15 doses – e depois mandaram-se vir mais 3 doses e ainda um bife. Segundo o Jornal de Negócios, o dono não assume nem nega as palavras "andaram a roubar-me a vida toda, agora roubo-vos eu a vocês". Mas, aqui entre nós, desconfio que este caso não é político; é gastronómico. Quem vai a uma das catedrais da Mealhada e comete o supremo insulto de mandar vir um bife, merece pagar a dobrar.

 

Violações

Como combater a violação do segredo de justiça? Simples: uma auditoria interna do Ministério Público propõe escutas a jornalistas e a devassa das redações. Entendo o raciocínio da coisa: se a justiça não consegue por ordem na própria casa, por que não invadir a casa dos outros? E, já agora, por que não calar de vez os jornalistas que ainda têm a temeridade de fazer o que a justiça nem sempre faz – investigar e denunciar a corrupção? O ideal, aliás, era que o jornalismo só se ocupasse de assuntos inócuos, como a "Casa dos Segredos", deixando em paz os grandes segredos da criminalidade económica. 

Como é evidente, não me passa pela cabeça que a procuradora-geral da República dedique a esta proposta um minuto de atenção. Nem que o Parlamento admita dentro de portas uma medida deste tipo. Caso contrário, mais valia que o país mudasse de nome para Venezuela ou coisa pior.

 

Narrativas

Parece que José Sócrates fez às audiências da RTP o mesmo que ao rating da República: degradou-as. Informa o Sol’ que, no espaço de oito meses, a coisa caiu para metade. Pior ainda: nas comparações entre craques, Sócrates perde para Marcelo (lógico), Marques Mendes (semi-lógico) e Morais Sarmento (hilariante). Explicações? 

A "narrativa" socrática, pelos vistos, não substituiu a outra, que dá pelo nome de "realidade". Sim, em 2011 a Europa debatia-se com uma crise financeira grave. Mas nem o PEC 4 era a salvação do país (o número 4 não está ali por acaso) nem ele corrigia um longo rol de misérias domésticas (crescimento medíocre, dívida sem controlo, défice na estratosfera, etc.) que são produto exclusivo do filósofo de Paris. 

Sonhar faz sempre bem; sonhar com Belém, também. Mas se a experiência televisiva ensina alguma coisa a Sócrates é que os portugueses aprenderam e não esqueceram. 

 

O meu 2013 (FSP, 31/12/2014)

Animais - Depois de invadirem um laboratório em São Paulo, fanáticos da causa animal invadiram o meu e-mail com os insultos de praxe. Infelizmente, discutir os "direitos dos animais" implica saber primeiro se, em nome desses duvidosos "direitos", é legítimo parar a ciência e os inúmeros tratamentos médicos que dependem da experimentação com bichos. Não creio. Quem pensa o contrário deveria, por motivos de coerência, recusar toda a tecnologia (e toda a farmacologia) que passou por ratos, símios ou cachorros.
 
Camus, Albert - O centenário de Camus não teve o mesmo brilho que o de Sartre em 2005. Injusto. Camus é superior a Sartre, mesmo que a sua proposta "existencialista" seja difícil de engolir: aceitar o Absurdo como um Sísifo feliz pressupõe um nível de autossuficiência raríssimo em matéria humana tão frágil.
 
Francisco - Com a renúncia de Bento 16 —coisa invulgar em mais de 600 anos de história— o Espírito Santo foi buscar um papa no "fim do mundo". Rezam as crônicas que, depois de eleito, Francisco terá informado os colaboradores que "o Carnaval acabou". Que o mesmo é dizer: é hora de recentrar a mensagem evangélica na missão primordial de acorrer aos desvalidos, sem perder energias com "batalhas culturais" redundantes. Amém!
 

[ continua aqui ]

A Voz da Razão (CM, Dezembro de 2013)

Bom tempo

Sempre que se fala em salários ou pensões, a minha costela libertária definha. Sim, podemos discutir se é avisado trabalhar até aos 66 ou dedicar 40 horas semanais a aturar o chefe. Mas a discussão devia ser outra: conseguir um sistema onde cada indivíduo trabalha o tempo que entende – e depois recebe o quinhão proporcional ao seu esforço. O que, no limite, poderia determinar semanas de 20 horas ou reformas aos 43 (ai quem me dera!). Um pouco de liberdade nestas matérias respeitava as legítimas ambições de cada um (à riqueza ou à preguiça) – e sempre libertava recursos e oportunidades para os restantes.

Por isso é de aplaudir a intenção do governo em ponderar um horário parcial para 2014 na função pública. Porque é preciso fazer mais filhos e cuidar deles? Certo. Mas o princípio devia ser alargado a qualquer criatura disposta a trocar dinheiro por um bem mais precioso: tempo. 

 

Nós e o Irão

Pobre Economist’: quem te viu e quem te vê. Agora, parece que o centro de estudos da casa fez um ‘ranking’ com os países em risco de agitação social em 2014. Portugal ocupa o escalão de ‘alto risco’, juntamente com o Paquistão (uma democracia duvidosa com actividade terrorista interna), o Irão (uma teocracia que, há quatro anos, andava a esfaquear o seu povo nas ruas) e a Bielorrússia (carinhosamente conhecida como a última ditadura da Europa). Isto é para levar a sério? 

Não é, disseram vários especialistas, para quem o enquadramento dos sindicatos e a ausência de movimentos extremistas impede que as coisas saiam completamente dos eixos. Subscrevo. Mas, antes de subscrever, repito: Paquistão, Irão, Bielorrúsia. E Portugal. Partindo do pressuposto de que o dr. Mário Soares não foi o autor do ‘ranking’, desconfio que até o bom velho Mário acharia a comparação ligeiramente violenta. 

 

Reformas

Dizia o ministro Gaspar que o seu maior erro foi não ter começado pela reforma do Estado. A frase é verdadeira e não é. É verdadeira porque quem começa por esmagar fiscalmente os portugueses não tem grande incentivo para reformar o Estado. Mas não é verdadeira porque alimenta a fantasia de que a reforma chegou no fim, não no princípio.

Ora acontece que não chegou. Diz o Tribunal de Contas, depois de olhar para o historial ‘reformista’, que a coisa é um fracasso. A nível de pessoal, estruturas, poupanças – o paquiderme continua, impávido e balofo. A ‘reforma’ que chegou no fim limita-se a ‘intenções’ ou tesouradas sem método, na esperança de que o paquiderme, perdendo uma pata ou uma tromba, possa abater uns quilos e virar um javali.

Infelizmente, não pode. E a pergunta final que o português raquítico coloca é simples: se nem com o chicote externo o país se reforma, Portugal terá reforma?

 

O museu

A Europa riu com os aspectos pícaros do funeral de Mandela: um falso intérprete de língua gestual; o ‘flirt’ de Obama com uma dinamarquesa generosa; e o clima desbragado que reinava entre os convivas. Curiosamente, a Europa não riu da sua própria insignificância no evento. E, que eu saiba, só a minha colega Lívia Franco comentou o facto na tv: depois das organizações internacionais; e dos países emergentes; e de Cuba e da Namíbia; e do presidente Zuma; e, claro, do incontornável Obama, não houve um único europeu – Durão, Merkel, Hollande – a usar o microfone. Porque a Europa sempre foi ambígua face ao ‘apartheid’? Mentira. A Europa sempre condenou o ‘apartheid’ sem com isso aprovar o terrorismo dos extremistas do ANC (um pormenor que não entra em cabeças cavernícolas). A invisibilidade da Europa explica-se por outros motivos: o Velho Mundo é hoje um museu que serve para enfeitar e pouco mais.

 

Contra a parede

Hollande tem 15% de popularidade em França. Passos Coelho tem o dobro entre nós. Esta diferença explica o destino da plataforma Uma Agenda para Portugal, que as más-línguas dizem ser a rampa de lançamento para Rui Rio. Eis o plano: Rio vence o PSD em Janeiro; Passos, choroso, regressa para Massamá; com eleições ou sem elas, o novo messias assume o governo; e é ele quem vai ao Terreiro do Paço dizer adeus às caravelas da ‘troika’.

Como ficção, a coisa comove. Pena que a realidade não comova assim tanto. Para começar, Passos recandidata-se à liderança do PSD porque, tirando algumas figuras vociferantes do norte, o homem ainda não perdeu completamente o partido. E, fora do partido, existe o país: com um ‘segundo resgate’ mais longe e com o BCE (e as agências de ‘rating’) a acreditar no regresso aos mercados, o único lançamento que a rampa pode oferecer a Rio é literalmente contra a parede.  

 

 

4ª Edição

imagem.jpg

Recebo do editor paulistano Alcino Leite Neto mais um exemplar do Por que Virei à Direita. Para celebrar a 4ª reimpressão do livro. Se, em 2012, me tivessem dito que uma colectânea de ensaios conservadores teria 4 reimpressões eu não teria acreditado. Agora, pelo andar da carruagem, já começo a acreditar na 5ª, talvez na 6ª, quem sabe uma 7ª. Obrigado, leitores, por terem feito deste livro um sucesso inesperado. 

Herodes, esse incompreendido (FSP, 3/12/2013)

O jornalista Paulo Francis, que adorava crianças malcomportadas, costumava dizer que Herodes tinha sido um incompreendido. Pena que Francis não esteja entre nós para contemplar o que se passa na Bélgica. O espírito de Herodes está vivo por aquelas bandas e o país está a um passo de legalizar a eutanásia para crianças.
 
Verdade que a Bélgica sempre foi bastante "liberal" (peço desculpa pelo uso abusivo do termo) nessas matérias. Segundo os manuais da especialidade, a eutanásia (ativa ou passiva) existe para terminar com o sofrimento intolerável (e incurável) de um doente. O médico pode matar o paciente (eutanásia ativa), ou, em alternativa, pode suspender certos tratamentos que terão o mesmo fim (eutanásia passiva). Seja como for, havia pelo menos um entendimento mínimo de que a eutanásia era um expediente extremo, só aplicável a situações extremas.
 
Acontece que a Bélgica foi alargando os casos de "situações extremas". Sim, um doente terminal com câncer cumpre os requisitos para uma injeção letal. Mas o que dizer de uma pessoa em profundo sofrimento psicológico ou acometida por uma deficiência irreversível como a cegueira? Se o argumento da autonomia é o mais importante nas questões de vida ou morte, não devemos respeitar também a autonomia de alguém que não deseja mais viver porque habitar as trevas --psicológicas, sensoriais-- não é destino que se deseje para ninguém?
 
Foi assim que a Bélgica começou a praticar estas formas de eutanásia "à la carte" muito para além dos casos clássicos de sofrimento irreversível. O passo seguinte --eutanásia para crianças-- era apenas uma questão de tempo.
 

[ continua aqui ]

Diário da Europa (Folha.com, 2/12/2013)

O Papa Francisco publicou a sua exortação evangélica e o jornalismo progressista (e preguiçoso) aplaudiu em delírio. Parece que o Papa tinha lançado um ataque devastador ao capitalismo, propondo uma via revolucionária - ou, pelo menos, bolivariana, para que o mundo pudesse seguir o excelso caminho da Venezuela de Maduro.
 
Com a devida vénia aos alucinados, fui ler a exortação. E, com surpresa, verifiquei que em 220 páginas, o Papa dedica umas 10 ao estado actual da economia. E para dizer o quê?
 
Simplesmente, o que qualquer cristão aprende desde os tempos da catequese: que temos obrigações para com os pobres e excluídos; que o mercado livre não resolve todos os problema sociais; que o dinheiro, por mais importante que seja, deve estar ao serviço da ética e do ser humano. E, pormenor fundamental, que mal vai o mundo quando permitimos que os mercados e a especulação financeira tiranizem todas as relações pessoais.
 
Escusado será dizer que subscrevo cada palavra de Francisco. E, mais ainda, subscrevo cada palavra precisamente porque defendo o mercado livre.

[ continua aqui ]

A Voz da Razão (CM, Novembro de 2013)

Demências

Escrevi na passada semana que o governo tencionava ‘cadastrar’ pais fumadores para proteger a saúde dos petizes. Notícia do Expresso. No dia seguinte, o Ministério da Saúde teve a fineza de enviar ao colunista um recorte deste Correio da Manhã onde o governo desmentia essa vontade. Registo a correcção.

Como registo todas as correcções que o governo faz sempre que uma lei polémica é soprada para os jornais e testada junto do povaréu temente. O Expresso, nem de propósito, recordava ontem uma longa galeria de medidas – dos animais domésticos ao tabaco nos automóveis – que, depois de chutadas para a praça pública, foram enfiadas na gaveta ante o horror da ditosa pátria.

Não sei se isto é uma forma moderna de governar. Mas talvez não fosse inútil que, daqui para a frente, os jornais tratassem destas ‘notícias’ com quem trata de um tio demente. Com carinho, sim, mas sem levar a sério o que ele diz.

 

Dois países

Soares avisa que a violência está a chegar; os sindicatos invadem os ministérios; a presidente Assunção promete tratar com dureza os insultos nas galerias parlamentares. Que se passa com o país?

Depende. Se a nossa resposta se ficar pela televisão, há uma guerra civil a caminho – e já só falta um Buíça tresloucado que desça ao Terreiro do Paço para repetir as proezas do original. O problema é que, fora da televisão, o país continua na sua brandura de sempre e as sondagens regulares são o espelho dessa brandura: o PS não descola; o PSD (e, sobretudo, o CDS) continua com cifras respeitáveis; e as esquerdas mais radicais oscilam entre a anedota (BE) e os mínimos olímpicos (PCP). 

A austeridade custa e dói. Mas no Portugal de hoje existem dois países: o país histérico das televisões; e o país real que, à falta de melhor, empurra os dias com a barriga e reza para que as coisas não piorem. 

 

Tudo em família

Que bonito: parece que os pais fumadores vão ter cadastro governamental, informa o Expresso. Como? Simples: se o ‘fumo passivo’ causa doenças em volta, por que não sinalizar no boletim de saúde das crianças que elas têm pais criminosos em casa?

O ideal, aliás, seria o Estado não ficar pelo fumo, inquirindo também a dieta da família (sal, açúcar, gorduras); a presença (ou ausência) de jogging matinal; e a intensidade sísmica que os progenitores geram nos momentos de intimidade e que pode causar danos psíquicos ou auditivos irreparáveis. Munido destas preciosas informações, o Estado poderia retirar as crianças desses antros de pecado – ou, em alternativa, punir os pais com taxas moderadoras dignas de fazer corar um calvinista.

Depois, na idade adulta, os filhos teriam também a oportunidade de processar os pais pelo rol de traumas e doenças que uma educação virtuosa teria evitado.

 

Tagarelas

Toda a gente gosta de molhar a sopa no dr. Rui Machete. Eu, não: com a devida vénia aos Marcelos e aos Marques Mendes desta vida, o dr. Machete é a única figura pública que eu escuto com atenção. 

Há uns tempos, a uma rádio angolana, o dr. Machete assegurava que as investigações judiciais a figuras próximas do regime de Luanda não iam dar em nada. Caiu o Carmo e a Trindade. Resultado: as investigações não deram em nada.

Depois, foi a novela dos 4,5%: se os juros a dez anos não descerem para esse nível, olá segundo resgate. Novo escândalo. Resultado: lê-se agora que a Comissão Europeia trabalha com um cenário de 4,5% para aferir a sustentabilidade da nossa dívida – e, claro, a possibilidade de um segundo resgate. 

Por outras palavras: na imensa tagarelice nacional, o dr. Machete pode falar o que não deve. Mas, pelo menos, ele fala o que sabe e até sabe do que fala.


Delírios

Um jornalista da BBC visitou o Porto. Texto delirante. A cidade tem lojas fechadas, pobreza nas ruas, edifícios devolutos? Facto. Como qualquer outra cidade europeia em plena crise. Mas o sr. Nigel Cassidy vai mais longe: o Porto é hoje uma mistura de Detroit com Havana, ou seja, uma lixeira decrépita onde ‘todas as esquinas’ (todas? mesmo?) são ‘um monumento à crise económica’.

Aliás, para dissipar dúvidas, o jornalista inaugura a ‘reportagem’ descrevendo um grupo de lavadeiras junto ao tanque comunitário. Só para mostrar como o trabalho ‘medieval’ (sic) está de volta. Não vale a pena lembrar que a prática, sobretudo no norte, é normalíssima e importantíssima na vida popular. Pessoalmente, já considero uma sorte que o sr. Cassidy não tenha visto as carroças de bois (que substituíram os carros) e o lançamento aéreo de detritos (que substituiu a canalização). Talvez para a próxima.

 

Sinais de sanidade

O país teve um dia de greve e o jornalismo doméstico tratou de ‘interpretá-lo’. Segundo parece, a greve não teve adesão total porque os portugueses estão espoliados e deprimidos, sem forças para o combate. É uma forma de ver as coisas.

Mas existe outra, mais optimista, que até revela o optimismo dos portugueses. O Expresso, por exemplo, ofereceu uma grande sondagem sobre o estado de espírito dos nativos. Contra todas as expectativas, 55% sentem-se "felizes" (e 12% "muito felizes") e 79% confessam-se "optimistas" ou "moderadamente optimistas". Melhor: 69% dizem mesmo que estão "mais felizes do que há três anos". Como explicar o paradoxo?

Simples: cansados das guerrilhas políticas entre governo, oposições e sindicatos, os portugueses começam a "italianizar-se". Que é como quem diz: a dedicarem à política o mesmo desprezo que a política lhes dedicou a eles. É um sinal de sanidade.

 

Psicologia invertida

Nunca percebi as "pressões" sobre o Tribunal Constitucional. Alguma vez funcionaram? Não creio. Desde o início da legislatura que a dança é a mesma: faz-se um Orçamento e depois, nos dias seguintes, começa a choradeira sobre os juízes. Quando os juízes decidem, o governo conclui, acabrunhado, que tanta choradeira não deu em nada.

Agora, com Durão Barroso pelo meio, voltou-se ao mesmo: se o Tribunal Constitucional o Orçamento, cai o Carmo e a Trindade. Alguém duvida que, perante isto, os juízes têm razões ainda mais redobradas para mostrarem as suas virtuosas incorruptibilidades?

Depois de tantos chumbos, um pouco de inteligência talvez recomendasse ao governo outra estratégia: 'Respeitaremos sem piar qualquer decisão do Tribunal Constitucional. E se houver inconstitucionalidades, seremos os primeiros a aplaudir.' Quem sabe? Com psicologia invertida, talvez os juízes resolvessem tratar do caso com outra brandura.

O crime de Maquiavel (FSP, 26/11/2013)

Maquiavel: o nome é todo um programa. E "maquiavélico" é adjetivo que dispensa apresentações. Quando acusamos alguém de maquiavelismo, não precisamos acrescentar mais nada. O sujeito é imoral, hipócrita, mentiroso, potencialmente violento. Uma mistura de Charles Manson com Hannibal Lecter, digamos. Estaremos a ser injustos com o florentino?

Estamos, sim, responde Michael Ignatieff. Ponto prévio: Ignatieff, um excelente filósofo, andou uns tempos perdido (ou será iludido?) na política canadense. Liderou o Partido Liberal. Disputou eleições. Perdeu. Como normalmente acontece com os filósofos que flertam com a política e são desiludidos por ela, regressou agora aos livros.

Em boa hora: na revista The Atlantic, Ignatieff celebra os 500 anos de O Príncipe (escrito em 1513) e oferece uma das mais preciosas explicações para o desconforto que Maquiavel sempre provocou nas gerações posteriores. Uma empreitada dessas já tinha sido iniciada por Isaiah Berlin no clássico "The Originality of Machiavelli", que Ignatieff obviamente conhece como biógrafo "oficial" de Berlin. 

No ensaio, Berlin começava por listar as múltiplas interpretações que foram sendo urdidas sobre a obra e o autor ("um manual para gangsters", disse Leo Strauss; "um humanista angustiado", disse Benedetto Croce; "um homem de gênio", disse Hegel). E depois, como é usual nos ensaios mais "escolásticos" de Berlin, o próprio acrescentava a sua interpretação a respeito: o que perturba em Maquiavel não é a defesa da dissimulação ou da violência. Ele não foi o primeiro. Não será o último.

O problema é que Maquiavel mostrou a incompatibilidade absoluta entre duas moralidades distintas na conduta de um político: a moralidade pagã e a moralidade cristã. Eis a "originalidade" de Maquiavel: quem deseja ser um bom cristão, cultivando as virtudes típicas do cristianismo (perdão, benevolência, compaixão etc.), o melhor que tem a fazer é afastar-se da política. Essas virtudes são boas em si mesmas (Maquiavel nunca negou isso, ao contrário do que se imagina). Mas elas são boas na vida privada dos indivíduos, não na defesa da comunidade.

Em política, são as virtudes pagãs (força, disciplina, magnanimidade etc.) que garantem a sobrevivência do Estado.

Ignatieff aceita o essencial dessa explicação. Mas acrescenta um ponto decisivo que está ausente do ensaio de Berlin e que me parece o mais importante: Maquiavel perturba-nos tanto, 500 anos depois, porque existe em nós a intolerável suspeita de que ele pode ter razão. 

[ continua aqui ]

Escritores e Pedófilos (FSP, 19/11/2013)

Um dia perguntaram a Gore Vidal se ele gostaria de mudar alguma coisa na sua biografia. O escritor respondeu: "A minha mãe". Em três palavras, Vidal vintage: uma mistura de ironia e crueldade. E de presciência, talvez: se é verdade que todas as famílias felizes são iguais, então cada família ressentida é ressentida à sua maneira.

O verniz da família Vidal estalou recentemente depois de o escritor, morto em 2012, ter deixado o seu patrimônio (tradução: US$ 37 milhões, cerca de R$ 84 milhões) à Universidade de Harvard. A família respondeu com um livro no qual alega que Vidal teria vivido anos de terror com a possibilidade de William Buckley, seu fiel inimigo, o denunciar como pedófilo. Buckley teria provas de vários crimes sobre menores. Infelizmente, os descendentes de Buckley confessam que o "dossiê Vidal" foi jogado fora depois da morte do patrono. Como quem joga uma roupa velha.

Perfeito. Não há provas. Apenas uma mancha: Vidal era pedófilo e não se fala mais do assunto. Uma mancha dessas não é apenas destrutiva de uma reputação. É destrutiva e macabra porque Vidal já não está entre os vivos para responder. Se bater em gente indefesa é sinal de covardia, o que será bater em gente morta?

Mas o "caso Vidal", que agitou as águas literárias, coloca uma questão mais séria: será que o comportamento pessoal de um artista, e mesmo o comportamento alegadamente criminal dele, diminui ou altera a qualidade da sua obra?

[ continua aqui ]

Imaginando Sísifo feliz (FSP, 12/11/2013)

Passaram cem anos sobre o nascimento de Albert Camus (1913-1960). Festejos pálidos. Injusto. Quando tivemos o centenário de Sartre em 2005, um filósofo e escritor inferior a Camus, as trombetas soaram com outro vigor.

Camus merecia mais atenção. E, na ausência de festejos públicos, optei pelos privados. Um pouco de nostalgia: já não lia Camus desde a adolescência. Encontrei surpresas gratas. Os romances continuam soberbos, ainda melhores do que na minha memória - e hoje, a caminho dos 40, é "A Queda" (1956), e não tanto "O Estrangeiro" (1942), que verdadeiramente me joga no tapete. Foram precisas algumas experiências de vida para compreender, tal como afirma o sinistro narrador de "A Queda", que a busca de um método - um sistema, uma ideologia, uma cartilha - é sempre o expediente dos homens sem caráter. Corrijo. Dos homens que não desenvolveram um caráter. "Touché, Albert!"

Mas depois vieram as desilusões. Desilusões, não. Discórdias. Brandas, perdoáveis, quase melancólicas. Quando li pela primeira vez o seu "Mito de Sísifo" (1942), esse ensaio torrencial sobre a nossa condição absurda perante "o silêncio do mundo", fiz de Camus o meu santo laico e do existencialismo, precisamente, uma forma de humanismo.

A argumentação de Camus era poderosa e nas primeiras linhas o autor avisava o auditório que pretendia enfrentar sem subterfúgios o mais relevante dos temas filosóficos: o suicídio. Se a vida não tem sentido e se recusamos o "salto de fé" para as consolações celestiais, o que nos resta, afinal?

Camus responde: resta-nos não negar a nossa condição absurda e, mais ainda, assumir essa condição com "consciência" e "revolta". Não é por acaso que Camus dedica as melhores páginas do seu "Mito de Sísifo" ao trabalho de um ator em palco. O ator, exemplo supremo do "homem absurdo", vive, ama e eventualmente morre intensamente - tudo no espaço de algumas horas e sempre com radical autenticidade. A vida que Camus recomenda é, na falta de melhor palavra, uma vida de "performance" permanente. Donde, a conclusão: pode haver uma dissonância insuperável entre o que a mente deseja (sentido) e um mundo que desilude (pelo absurdo). Mas esse fato não autoriza o suicídio. Parafraseando Nietzsche, a ausência de uma vida eterna convida os homens a uma vivacidade eterna.

Aos 18 ou 19 anos, o programa era tentador. Mas, honestamente, quem, exceto um ator em palco, consegue viver a vida em permanente intensidade? A atitude de Camus, longe de aceitar o absurdo, parece-me agora uma fuga ao absurdo. Pior ainda: uma fuga desesperada ao exato desespero que ele procura resolver.

[ continua aqui

Atrações de feira (FSP, 5/11/2013)

Espero escrever um dia sobre "The Wire", a série da HBO que me acompanha há vários meses. Digo "há vários meses" porque, apesar de ter apenas cinco temporadas, é a primeira vez na vida que assisto a uma série que exige repetição contínua do mesmo episódio. Só para saborear a carpintaria literária do produto; a complexidade de cada personagem; e os diálogos, meu Deus, capazes de transformar o calão rasteiro das ruas em duelos verbais dignos de um Edmond Rostand. O mundo imundo de Baltimore ganha em "The Wire" o mesmo estatuto épico que Victor Hugo concedeu a Paris; e Dickens, a Londres; e Dostoiévski, a São Petersburgo. Não estou a delirar.

Mas estou a lamentar. Quando a TV surgiu em meados do século 20, alguns luditas modernos decretaram a morte do cinema. Enganaram-se, claro. Mas enganaram-se apenas por meio século. Como escreveu Michel Laub em excelente texto para a Folha, as séries de TV americanas sugaram o talento audiovisual que existe. Só discordo de Laub no otimismo dele: para o colunista, ainda há esperança para a sétima arte se ela conseguir superar o desafio do "ponto final" - contar em duas horas o que as séries contam em dois meses, dois anos, quem sabe duas décadas. Infelizmente, e para mim, o "ponto final" do cinema "mainstream" começa a ganhar contornos mais literais.

Um bom exemplo é o filme do momento, "Gravidade", de Alfonso Cuarón. Acompanho as críticas. Confesso pasmo com tanto pasmo. Que o filme é um prodígio visual, ninguém nega: os primeiros 15 minutos em plano-sequência, quando a trilha sonora não arruína a beleza do silêncio, valem como experiência estética. Mas é a pobreza narrativa do filme que deprime, sobretudo para quem esteve nas ruas de Baltimore horas antes.

[ continua aqui