WORK IN PROGRESS 2009

30 de Junho, Folha de S. Paulo

TEMPOS HOUVE em que certos comportamentos pessoais eram parte da diversidade humana. Uma pessoa tímida era simplesmente uma pessoa tímida. Uma pessoa expansiva era simplesmente uma pessoa expansiva. Nem todos podemos ser borboletas. Alguns acordam para o mundo e descobrem, ao contrário do que Kafka dizia, que os pequenos insectos também têm o seu encanto.

Gradualmente, a psiquiatria começou a ter uma palavra sobre o assunto, procurando "regular" ou "normalizar" a variedade de que somos feitos. Não é preciso ter lido Foucault para acreditar nessa história, até porque o radicalismo de Foucault não ajuda e só atrapalha. Basta olhar em volta.

Basta olhar para amigos tímidos, ou então para crianças hiperativas (ou deliciosamente preguiçosas), e encontrar neles um potencial doente, um potencial demente, a exigir intervenção psicofármica. Uma parte da medicina moderna acredita na ideia, pessoalmente aberrante, de que deve existir um padrão de "equilíbrio comportamental" para definir um ser humano harmonioso, realizado e feliz.

O problema é que poucos correspondem ao padrão. Depois desse almoço, regressei a casa, disposto a investigar o crime. E então encontrei, por feliz coincidência, o relato precioso da última reunião da American Psychiatric Association, em São Francisco. Segundo parece, essa vetusta agremiação de luminárias discutiu as últimas alterações ao manual de referência da especialidade, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder. Publicado desde 1952, e revisto de década em década, o manual pretende agora incluir novas "doenças" mentais, em sintonia com o espírito do tempo. Exemplos? Vários.

Para começar, existem "doenças" relacionadas à alimentação. É o caso da "binge-eating disorder" e da "night-eating syndrome". Em linguagem de gente, a primeira refere-se a uma compulsão excessiva para comer mais do que o estritamente necessário; a segunda pretende diagnosticar, e tratar, o gosto perverso por assaltar a geladeira depois da meia-noite. Mas a lista de novas "doenças" não fica por aqui.

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29 de Junho, Folha On Line

POBRE Michael Jackson. O homem morre como todos morremos. Radicalmente só. Com o coração a despedir-se prosaicamente do corpo. O mundo, em choro e transe, não acredita. Um mito não morre assim. Porque assim morremos nós, anônimos e mortais, mergulhados na nossa própria miséria. Os mitos só morrem por acidente ou conspiração invejosa de terceiros, que não aguentam o brilho incandescente da estrela.

John Kennedy não foi abatido pelo fracassado Lee Oswald numa manhã funesta de Dallas. Kennedy foi assassinado pela CIA, pelos cubanos, pelos soviéticos, pela máfia, eventualmente pelos extraterrestres.

O mesmo para a "Princesa do Povo", Diana Spencer. Uma vítima de um motorista alcoolizado e irresponsável numa noite de Paris? Não, mil vezes não. Diana foi vítima da Família Real inglesa, que a desprezava para lá do tolerável. Para dar mais requinte ao episódio, há quem garanta que Diana estava grávida. A autópsia não confirmou. Mas quem se prende a pormenores? Eu, por mim, aposto que eram gêmeos.

E, agora, Michael Jackson: ele não morreu por excessos vários e loucuras evidentes. Foi o médico; foi a empregada; foi o Rato Mickey quem acabou com o cantor.

Deixemos as teorias da conspiração para as mentes conspiratórias. No meio do sentimentalismo vulgar, e quase religioso, com que o planeta chora a morte de Jackson, a única declaração vagamente sensata foi dita pelo próprio presidente americano.

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15 de Junho, Folha On Line

LI os jornais disponíveis. Acompanhei as reportagens televisivas. O tom era semelhante: pela primeira vez desde 1979, altura em que Khomeini deixou o seu exílio dourado em Paris para regressar a Teerã, os iranianos iriam escolher novo presidente. Pior: iriam escolher um "moderado" (Mousavi) por oposição a essa grotesca criatura chamada Ahmadinejad.

A fantasia esquecia dois pormenores básicos, quase dolorosos. Primeiro: o Irã não é uma democracia. O Irã é uma teocracia, o que significa que as decisões (iniciais e finais) pertencem ao Líder Supremo, Khamenei.

É o Líder Supremo quem escolhe os candidatos presidenciais. Em todas as eleições, aparecem centenas ao cargo. Esse ano, foram 485 candidaturas. Quatro foram selecionadas, depois de verificação apertada, ou seja, depois de se verificarem os créditos revolucionários dos quatro candidatos, rigorosamente do sexo masculino e rigorosamente muçulmanos xiitas. Mas a influência do Líder Supremo não termina aqui. O Líder Supremo, independentemente do resultado da votação, escolhe o presidente do Irã. Os iranianos que foram às urnas são apenas figurantes de um teatrinho sórdido.

Mas há mais. Nos últimos dias, surgiu igualmente a fantasia de que Ahmadinejad poderia ser derrotado por um "moderado". E quem é o moderado? Precisamente: Mir-Hossein Mousavi, um antigo primeiro-ministro de Kohmeini, responsável pela execução maciça de opositores políticos na década de 80 (20 mil? 30 mil?). Alguns jornalistas, sem um pingo de vergonha na cara, chegaram mesmo a acrescentar que Mousavi iria inaugurar um novo período de relações amigáveis com o Ocidente e, pasmem, Israel. Para os relapsos, relembro que Mousavi esteve envolvido no atentado terrorista ao centro cultural judaico de Buenos Aires. Morreram 85 pessoas.

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1 de Junho, Folha On Line

FOI ASSIM que chegámos a 2009 e às eleições que começam quinta-feira. E é assim que chegamos à pergunta inevitável: se a Europa não respeita os europeus, por que motivo os europeus devem respeitar a Europa?

Felizmente, a maioria não respeita. Falando apenas de Portugal, a abstenção estará de acordo com a média geral. Os políticos lusos fazem apelos lancinantes à participação do povo. Alguns falam mesmo na necessidade de adotar o "voto obrigatório", o que seria a suprema consumação da farsa. Os portugueses, povo abençoado, nem os ouvem. No domingo, quando chegar a nossa vez, estaremos todos, ou quase todos, na praia, no campo, no bar ou no cinema.

E os que votam? Os que votam estarão interessados, não em eleger os "deputados" europeus - mas em premiar, ou castigar, os partidos nacionais. No papel, as eleições elegem um novo Parlamento Europeu. Na prática, toda a gente sabe, a começar pelos partidos, que as eleições são uma espécie de mega-enquete para avaliar a popularidade dos governos. E, no caso especificamente português, uma espécie de primeiro turno das eleições legislativas que teremos no final do ano.

Moral da história? O fosso cresce entre uma estrutura política que cada vez mais governa a vida dos europeus; e os próprios europeus, que não se reconhecem nessa estrutura política e que simplesmente a desprezam ou ignoram. Não sei até quando vai durar este espetáculo. Mas, enquanto o espetáculo rola, os europeus já aprenderam a pendurar na porta o clássico "Favor não incomodar".

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Junho, GQ

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[ João Pereira Coutinho ] E, no entanto, cá estamos nós em 2009. Temos 3 eleições pela frente. O PSD tem de ganhar as três?

[ Pedro Passos Coelho ] Acho que o PSD tem que bater-se por ganhar as três. Mas preponderante para o país é uma vitória do PSD nas eleições legislativas.

O que é que o distingue da actual líder do PSD?

Do ponto de vista político é um bocadinho difícil dizer o que nos distingue. Prefiro responder desta maneira: relativamente ao conjunto das propostas que a actual comissão politica nacional fez de resposta à crise, ou seja, as medidas de apoio às PME´s, são propostas com as quais me identifico. Também estou de acordo com a dra. Manuela Ferreira Leite quando ela diz que o país não tem condições nesta altura para estar a comprometer-se com um programa de investimentos que pesarão demasiado para a dívida pública e para os impostos futuros. Julgo que nestas duas coisas importantes parecemos estar de acordo.

Por outras palavras: vai votar na dra. Ferreira Leite.

Com certeza. Quaisquer que sejam as divergências que eu possa ter, as diferenças de pontos de vista com a direcção que está eleita, a minha capacidade de influenciar o PSD é muito maior do que a minha capacidade de influenciar o PS. Portanto, espero que um governo do PSD se aproxime mais daquilo que eu acho que é importante para o país do que um governo do PS.

Porém, se as coisas correrem mal à actual direcção…

O caminho que venho defendendo não está ainda explicitado no programa eleitoral do meu partido e continuarei a bater-me por ele dentro do PSD. Se isso tiver de implicar materialmente ser candidato, um dia, à presidência do PSD, garanto-lhe que não tenho nenhum medo. Não vou estar na posição do gato à espera que a gaiola abra, nem do abutre à espera que alguém morra, não me vejo nessas vestes. Mas se as coisas não correrem bem, terá de se equacionar o que se deve fazer.

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Excerto da entrevista a Pedro Passos Coelho para a revista 'GQ'

 

31 de Maio, Folha de S. Paulo

O PLURALISMO de Berlin, a defesa de que os seres humanos são distintos e também por isso desejam valores radicalmente distintos, é o mais poderoso argumento contra o mundo fechado das utopias. O pensamento utópico acredita e professa que, no passado ou no futuro, existiu ou existirá um estado onde as necessidades humanas se encontram resolvidas. Um mundo perfeito onde os seres humanos desejam necessariamente os mesmos fins de vida e onde os valores caros à existência se encontram harmoniosamente reconciliados na sua expressão máxima.

Infelizmente, o pensamento utópico falsifica a natureza dos homens e a própria natureza dos valores. O século 20, com seu longo cortejo de horrores e atrocidades, não foi apenas um século de crimes vulgares. Foi um século que cometeu esses crimes porque pretendeu iludir a natureza pluralista dos homens e dos valores sob a capa da mais feroz uniformidade.

As utopias estão condenadas ao fracasso, não porque os homens são fracos, ou ignorantes, ou insuficientemente sonhadores. Mas porque a própria ideia de utopia como um estado perfeito onde os homens desejam os mesmos valores e onde os valores podem ser harmonizados na sua expressão máxima assenta na mais pura falsidade existencial e filosófica. Os homens não são assim. Os valores também não.

Cem anos depois do seu nascimento, o legado de Isaiah Berlin permanece válido para o futuro: as nossas sociedades só sobrevivem quando somos capazes de estabelecer equilíbrios entre valores concorrentes, sem nunca permitir que o poder político leve ao extremo esses valores.

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Para os interessados, o livro de crónicas Avenida Paulista já tem edição brasileira, pela Record. Não façam cerimónia: sirvam-se aqui ou aqui. [ A edição portuguesa, pelas Quasi, continua disponível aqui ou aqui. ]

 

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FOLHA - Quando você começou a escrever crônicas para o público brasileiro, como as imaginou?

JOÃO PEREIRA COUTINHO - Pensei em leitores chorando de gratidão, matrimônios desfeitos por ciúmes bobos, cartas de amor desesperadas. Não aconteceu. Mas eu continuo a tentar, começando do zero todas as semanas. O objetivo é o mesmo: divertir, informar, enfurecer e conquistar o leitor. No fundo, eu só quero ser amado. [risos]

Entrevista para a Folha de S. Paulo sobre o livro Avenida Paulista, aqui.

Para comprar o livro, aqui ou aqui. A edição brasileira está aqui ou aqui.

Artigos sobre o livro, aqui (Eduardo Pitta, Público), aqui (Sara Figueiredo Costa, Time Out Lisboa), aqui (revista Veja), aqui (Rafael Cariello, Folha de S. Paulo) ou aqui (Daniel Piza, Estado de S. Paulo).

 

- Entrevista em seis partes a Martim Vasques da Cunha do Instituto Internacional de Ciências Sociais de São Paulo e da revista Dicta & Contradicta. [ Primeira parte, aqui; segunda parte, aqui; terceira parte, aqui; quarta parteaqui; quinta parteaqui; sexta parte, aqui. ]

- Uma conversa radiofónica sobre Portugal e o Brasil, com Francisco José Viegas e Otavio Frias Filho, aqui [wma], aqui [mp3] ou aqui [audio real].

- Uma conversa com o jornalista brasileiro Bruno Garschagen, aqui.

- Uma conversa televisiva, na TVI24, com Alexandra Lencastre, aqui. [Procurar vídeo de 19 de Abril]

- Uma conversa televisiva, na RTP2, sobre a felicidade, com Paula Moura Pinheiro e Ana Martins, aqui

 

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Apresentações biográficas, aqui.

E-mail pessoal (mas transmissível), aqui: jpcoutinho [arroba] jpcoutinho.com

'Trabalhos Passados', na(s) próxima(s) página(s).

 

 

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