Conversas de cama (FSP, 27/1/2015)

O que fazer com as mulheres que voluntariamente aparecem na página 3 do Sun para partilharem com os súditos do reino as curvas e contracurvas das respectivas topografias? Não será essa opção uma atitude de "independência feminina" – a aplicação, na prática, do bordão feminista "no meu corpo mando eu" que é usado, por exemplo, nas discussões sobre a legalização do aborto? Ou essa "autonomia" fundacional não se aplica no caso em apreço?

A questão não é simplesmente "filosófica". Porque foram várias as modelos da página 3, presentes ou passadas, que consideraram o fim das fotos de topless um atentado à autonomia das mulheres. "Quem são as feministas para decidirem em meu nome?", perguntaram elas. Não será essa atitude uma forma de paternalismo perfeitamente comparável ao machismo que as feministas dizem combater?

 

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Diário de Oxford - capítulo 7 (Folha.com, 26/1/2015)

Todos conhecemos a obsessão dos ingleses com o estado do tempo. Eu próprio, que sou indiferente a variações climatéricas, tive que começar a escutar o boletim meteorológico de manhã para ter conversa o resto do dia. 

Agora que estamos em janeiro, a saga continua. Mas com uma nova personagem em cena: a neve. A neve que não chega. A neve que vai chegar. Diariamente, nas conversas banais, eu começo com o primeiro verso: "Está frio." O outro, feliz por encontrar um cúmplice, responde: "E dizem que vai nevar." Então olhamos os dois para o céu, silenciosos e tementes, em busca de um sinal redentor. Não sei onde Beckett teve a inspiração para o seu Godot que nunca aparece. Mas não ficaria espantado se tivesse acontecido com as conversas meteorológicas que existem por aqui.

 

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NAÇÃO VALENTE (CM, 23-25 de JANEIRO)

Rambos

Assim ninguém se entende: às terças, Cavaco Silva é um ‘salazarista convicto’, afirma o dr. Soares. Às quartas, o mesmo dr. Soares pede ao Presidente da República uma tomada de posição sobre Sócrates. Que posição será essa? Uma posição branda não serve: criticar a prisão ‘por motivos políticos’ significa dar uma canelada na separação de poderes e transformar o Estado de Direito numa farsa. É pouco.

A solução devia incluir uma acção militar, com o dr. Cavaco a chefiar um pelotão até Évora com o heróico propósito de libertar o detido 44. Experiência, aliás, não lhe falta: ao contrário do dr. Soares, parece que o dr. Cavaco foi à tropa, cumprindo humildemente as obrigações da ditadura. Se o dr. Cavaco voltar a calçar as botas para salvar o prisioneiro a quem as querem tirar, talvez o dr. Soares reconsidere a sua posição e, em próxima coluna, faça um elogio sentido à ditadura pelos nobres soldados que ela formou. 


Crueldades

Falava há tempos com um europeísta convicto que me dizia em surdina: uma vitória do Syriza era a melhor coisa que podia acontecer à Europa. Porquê? Simples: as pretensões do sr. Tsipras de descartar metade da dívida teria como consequência o regresso ao dracma. Depois, com o desastre social e económico em Atenas, a Europa podia tranquilamente apagar os fogos radicais que crepitam por aí, apontando para Oriente e afirmando: ‘Estão a ver?’

Infelizmente, o PS não fala com a boca fechada. Prefere mantê-la aberta, olhando com ‘simpatia’ para a vitória da extrema-esquerda no país. De duas, uma: ou a ‘simpatia’ é cínica; ou, pior ainda, é perfeitamente honesta – e o pessoal do Rato imagina que os eleitorados da Europa marcharão para o barbeiro, cantando e rindo, prontos para o seu ‘corte de cabelo’. Qualquer das hipóteses só leva ao mesmo desfecho: os gregos verem-se gregos. E isso é de uma crueldade bizantina.


Hiroshima,
meu amor

Diz o Bloco de Esquerda que o governo tem uma ‘estratégia monstruosa’ para destruir os transportes públicos. A acusação, certeira e pungente, junta-se assim a outras acusações que se acumularam nos últimos anos. O governo, pelas minhas contas, desejou destruir: as escolas; os hospitais; a segurança social; a ciência; os tribunais; os polícias; as empresas; os trabalhadores; os jovens; os desempregados; os reformados; os artistas; os ‘gays’. A estratégia, no fundo, passaria pela total destruição do país e dos portugueses que existem dentro dele. No final da razia, o mais provável era o primeiro-ministro autodestruir-se e levar com ele ministros, secretários de Estado, assessores, motoristas e a senhora da limpeza que vai a S. Bento às terças e quintas. 

Assim se percebe por que motivo o dr. Passos estava a ‘lixar-se’ para as eleições. De facto, sem país e sem portugueses, as eleições já não são precisas para nada.   

 

 

O Guerreiro das Palavras (FSP, Ilustríssima, 25/1/2015)

Quando olhamos para a vitória das potências aliadas em 1945, encontramos várias explicações para o feito. A participação americana a partir de 1941 foi crucial; o sacrifício soviético foi mais crucial ainda; e, por falar em União Soviética, a decisão de Hitler em rasgar o pacto de não-agressão Molotov-Ribbentrop e tentar o mesmo que Napoleão antes dele (a invasão russa), teve o mesmo desfecho: uma humilhante derrota. Mas em 1940, quando Londres combatia ainda sozinha, a guerra só não foi perdida porque Churchill era um brilhante leitor, escritor - e ator. 

Essa, pelo menos, é a tese do mais interessante livro sobre Churchill que surgiu nos últimos tempos para assinalar os 50 anos da morte. Intitula-se "The Literary Churchill" [Yale University Press, 528 págs., R$ 77,83 e-book], e o autor, Jonathan Rose, pretende mostrar como a política e a literatura estiveram intimamente ligadas na carreira do estadista. De tal forma que os seus objetivos políticos, e em especial a resistência face a Hitler, foram profundamente moldados pelos livros que ele lera e, não menos importante, pelas peças de teatro a que assistira. 

 

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«JE SUIS WINSTON?»

Passam hoje 50 anos sobre a morte de Churchill e os jornais prestam as homenagens devidas. Uma pergunta, porém, é inescapável: Churchill seria eleito nos nossos dias? Verdade que, depois da vitória sobre Hitler, Churchill perdeu as eleições de 1945 para os trabalhistas. Mas isso explica-se por razões circunstanciais: o cansaço do povo com a guerra e as promessas ‘assistencialistas’ de Clement Attlee convidavam a um virar de página. Apesar de tudo, Churchill ainda ganharia umas eleições (em 1951). E hoje? 

Hoje, Churchill não sobreviveria à mediocridade política reinante. Nas ‘democracias mediáticas’ em que vivemos, ter alguém cujos vícios (a bebida; a rudeza; uma certa relutância em praticar ‘jogging’) estavam ao nível das suas virtudes (a erudição; a coragem; a independência de espírito) seria a morte do artista.

Aqueles que declaram ‘Je suis Winston’ seriam os primeiros a votar no candidato do lado. 

 

Vidas de sucesso (FSP, 20/1/2015)

Uma amiga trabalhou há uns anos em programa televisivo para revelar novos talentos. As histórias que ela conta são hilariantes –e arrepiantes.

Para começar, existe o número obsceno de candidatos —centenas, milhares— que vêm do país inteiro para conseguir os clássicos 15 minutos (ou serão 15 segundos?) de fama.

Com eles, vêm as mães —sim, normalmente são as mães que acompanham as crianças e esperam que o sucesso dos filhos possa ser uma compensação pelo sucesso que elas não tiveram. Para o espírito do tempo, o sucesso é a suprema felicidade. O anonimato, o insuportável anonimato, a marca vergonhosa da infâmia.

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Resposta a Slavoj ZizeK (FSP, 18/1/2015)

Slavoj Zizek tem razão: depois dos massacres de Paris, é preciso coragem para pensar. Mas alguém deveria ter explicado a Zizek que coragem, por vezes, não chega. É preciso ter algum material na massa cinzenta para realizar tal tarefa.

O texto de Zizek alimenta as minhas dúvidas: ele é contraditório, historicamente relapso - e, no essencial, apenas debita a velha cartilha totalitária de que o "liberalismo", pela sua intrínseca "fragilidade", é uma presa fácil para o terrorismo islamita. Se eu tivesse lido o texto de Zizek sem conhecer a verdadeira autoria, diria que alguém tinha ressuscitado Carl Schmitt, o ilustre jurista do Terceiro Reich, e as suas considerações nefandas sobre a democracia liberal.

[ continua aqui: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/01/1575785-nao-e-o-ocidente-que-deve-mudar-mas-o-isla-diz-joao-pereira-coutinho.shtml ] 

 

NAÇÃO VALENTE (CM, 16-18 de Janeiro)

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Profetas da desgraça

A eurodeputada Ana Gomes não concorda com a nova capa do Charlie Hebdo. É uma ofensa desnecessária ao Profeta, diz ela, repetindo a posição dos fundamentalistas. Difícil discordar: sobre a capa e, já agora, sobre as causas do massacre em Paris, que a senhora depositou à porta da "austeridade". Sei do que falo. Os meus vizinhos tiveram cortes nos salários com o diabólico governo Passos. Ficaram irreconhecíveis. Ele, com as últimas poupanças, comprou o Corão e uma bússula para se orientar para Meca. Ela começou por usar véu e depois passou para a burqa. Só não asfixiou porque o INEM interveio a tempo. 

Mas o caso mais problemático foi o filho, que me encontrou na rua e perguntou onde comprar uma Kalashnikov. "Ou isso, ou emigro", disse ele. Depois de meditar um pouco, arrisquei: "O Leroy Merlin costuma ter umas coisas muito jeitosas."

O rapaz lá foi. Nunca mais o vi. É legítimo esperar o pior.

 

Só uma voltinha

O governo "neoliberal" de Passos decidiu privatizar a TAP. Privatizar, vírgula: semi-privatizar, oferecendo 66% da empresa e algumas condições irresistíveis aos interessados. Ainda não sabemos todos os pormenores da coisa. Mas parece que não haverá despedimentos durante 30 meses e, quem levar a companhia, será devidamente tutelado pelos sindicatos nas decisões estratégicas a tomar. 

Isto, que para alguns é muito, a mim parece-me pouco. E ficaria seriamente desapontado se o governo não tivesse garantido a cada funcionário da TAP – do mero bagageiro à hospedeira de bordo – a possibilidade de tripular um avião de vez em quando, só para impressionar a família e os amigos. A "paz social" também se faz destes pequenos gestos. E estou certo que os compradores internacionais, que já devem vir em manada para Lisboa, ficariam ainda mais rendidos com uma companhia onde ninguém discrimina ninguém.

 

Não há melhor

Uma projecção da Eurosondagem mostra que o PS caminha para a vitória. Mas a vitória não será absoluta e, pior ainda, os partidos do governo, em vez de descerem, sobem. A coisa, compreensivelmente, caiu mal em certos estômagos socialistas, para quem o Seguro os deixava inseguro. António Costa, pelo contrário, faria um trabalho completo – e com happy ending no final. 

Com a devida vénia ao pessoal do Rato, não é a liderança pífia do PS que me alegra. Muito menos a subida do PSD e do CDS. O que deve alegrar um português racional é olhar para a sondagem e verificar que partidos populistas ou radicais continuam no seu devido sítio, ou seja, reduzidos a uma meritória insignificância. É pouco?

Não é. E uma viagem pela Europa – do "Podemos" espanhol ao "Syriza" grego – só serve para confirmar a sanidade da raça: a "austeridade" dói; mas os delírios de quem promete fantasias ainda podem doer mais. 

Gigantes no céu

Oxford tem um céu baixo. Como se existissem gigantes sentados sobre as nuvens, o que não seria de espantar: Jonathan Swift, Adam Smith, Oscar Wilde, T.S. Eliot, Terence Rattigan - a lista de ilustres fantasmas que por cá passaram não tem fim. Deve ser por isso que Stephen Sondheim, e em especial este tema de "Into the Woods", casa tão bem com as minhas caminhadas matinais. Irónico: pertence a um nova-iorquino a mais perfeita melodia sobre este lugar. Espero que os gigantes não se importem. 

Diário de Oxford - Capítulo 6 (Folha.com, 29/12/2014)

Nunca fui poeta. Como dizia um humorista português, eu sempre fui mais prosa. Mesmo na adolescência, quando as hormonas exigiam rimas, eu optava pela narrativa. 

Tudo isso pode mudar. Colegas ingleses introduziram-me à história e à técnica do "clerihew". O nome vem de Edmund Clerihew Bentley, que inventou pequenos poemas para matar o tempo antes que o tempo o matasse a ele. 

 

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Diário de Oxford - CAPÍTULO 5 (Folha.com, 15/12/2014)

Conversa-se muito em Oxford. E, quando o interlocutor é nativo, o cardápio é conhecido: apresentações; comentários sobre o estado do tempo; e quando a intimidade começa a ganhar forma e o nosso sotaque soa exótico, o interlocutor pergunta: “E você vem de onde?” (Um conselho: nunca esconda o seu sotaque de origem e jamais tente imitar o sotaque inglês; só os ingleses falam como ingleses).

Respondo: “Portugal.” O outro abre um sorriso, imagina dias infindos de sol, bom vinho, comida mediterrânica – e conclui: “Ah, eu sempre adorei a Europa.”

Em dez segundos, aqui está a prova definitiva de que a Inglaterra e a União Europeia são um casamento de conveniência, não de amor genuíno. Para os ingleses, a Europa sempre foi, e sempre será, aquele continente estrangeiro. 

 

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Os judeus existem? (FSP, 9/12/2014)

Será que os judeus existem? Melhor: será que faz sentido falar de judeus no século 21? Sim, certo: quem nasce de mãe judia é considerado membro do clube para todo o sempre. Ou, pelo menos, até se converter a um credo religioso distinto.
 
Mas, sejamos honestos, Israel foi fundado em 1948. Os critérios sentimentais e nacionalistas do passado são hoje um anacronismo e, pior, uma forma de racismo.
 
Israel não deveria ser um "Estado judaico" da mesma forma que os Estados Unidos não são o "Estado anglo-saxônico protestante". Confundir matérias religiosas com critérios políticos e republicanos é um fardo que os "israelenses" (e não os "judeus") devem abandonar.
 
Eis, em resumo, a mensagem de Shlomo Sand na polêmica do momento.

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Diário de Oxford - Capítulo 4 (Folha.com, 1/12/2014)

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Caminho pela Pusey Street e vejo um rapaz de 18 ou 19 anos que pedala na minha direção. Só que o rapaz não me vê: na calçada, passam duas donzelas da mesma idade. O intrépido ciclista acompanha o movimento de ambas, rodando a cabeça para trás, ao mesmo tempo que pedala em frente. Má combinação. 

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Michel, O Grande

Há muitos, muitos anos, assisti a uma cerimónia dos óscares em que passou um filminho de homenagem ao cinema. E, lá pelo meio, havia uma melodia que me ficou gravada na cabeça como ferro em brasa. Se algum talento tenho, e familiares e amigos sabem disso, é identificar de imediato uma banda sonora. Até porque uma parte da boa música erudita do século XX - de Miklós Rózsa ao actual Alexandre Desplat - está nas telas. Mas aquele tema - meu Deus, aquele tema - simplesmente não aparecia no radar. 

O tempo passou. Apenas de ouvido, aprendi a tocá-lo ao piano, sem saber o que estava a tocar. 

Um dia, em Lisboa, apanhei um táxi. E a música voltou para me assombrar. Com o coração aos saltos, perguntei ao motorista que CD era aquele. Ele disse-me que era rádio, não CD. Falamos de tempos pré-iPhone; nenhum "app" me poderia salvar. E eu via a música escapar-me pelos dedos como Zhivago viu a sua amada desaparecer no final do filme homónimo. 

Passei a torturar família, amigos, conhecidos. Tocava a música, assobiava - e eles, desolados, confessavam a sua ignorância. Cheguei até a envolver a minha professora de piano nessa busca; ela falou com colegas. Nada. A música só existia na minha memória e eu, como um Proust angustiado, às vezes acordava com ela. Na memória, apenas na memória. 

Hoje, saí para a minha caminhada matinal e parei no café do costume: o "Maison Blanc", para capuccinos e croissants (sim, no plural). Tomei o pequeno-almoço, li a imprensa nativa. Paguei.

No momento em que abri a porta da rua para me fazer à estrada, a música soou nas colunas do café. Mas soou de forma diferente - como se fosse tocada na sua versão original. Petrificado, gritei: "Mas isto é Michel Legrand!"

 Voltei para trás - como quem recupera um amor de 20 anos de buscas incessantes - e perguntei ao empregado: "Que música é esta?" 

Ele, e a restante clientela, olhou para mim como se eu tivesse fugido de um asilo psiquiátrico. Repeti a pergunta quase em lágrimas, temendo a resposta ("Não sei, é rádio.") 

Não era rádio. O rapaz, atordoado e talvez assustado, foi confirmar o nome. Era Michel Legrand, sim. E o filme, que nunca vi, intitula-se "Les parapluies de Cherbourg". 

Suspirei fundo. E, mergulhando novamente no frio siberiano de Oxford, senti o que os alpinistas devem sentir quando chegam ao cume de uma longa escalada. O que é verdadeiramente nosso, a nós regressará um dia.

 

Vida breve (FSP, 25/11/2014)

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“Vida intensa e breve, pensou a lebre, correndo sobre as ervas do mundo”. Roubo essas linhas ao poeta português José Agostinho Baptista porque elas são a trilha sonora dos meus dias. Ou, pelo menos, desses últimos anos. Caminho para os 40. E, com uma nitidez arrepiante, sinto que o tempo acelera como nunca. Explico: aos 10, aos 20, o tempo passava com um ritmo mais lento. O ano académico era longo. As férias de Verão também. E os dias, cada dia, tinham minutos que duravam horas e horas que duravam semanas. 

Subitamente, os dias encolheram. E, com os dias, as horas e as semanas. Como explicar o fenómeno?

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Mulheres que apanham (FSP, 18/11/2014)

Todas as mulheres gostam de apanhar. Só as neuróticas é que reagem. Assim falava Nelson Rodrigues. E assim falo eu, em jeito de provocação, ao meu auditório feminino lá em casa. 

Sem sucesso: rodeado por mulheres mais inteligentes do que eu, elas tratam de responder às provocações com outras provocações de igual calibre, irreproduzíveis num jornal de família. 
Eu, sovado e acabrunhado, encerro a discussão, fugindo para a primeira premissa: “Estão vendo? Neuróticas, todas vocês.” 

Brinco, claro. Mas depois, com o café da manhã, vou lendo notícias que ressuscitam o velho Nelson e conferem “gravitas” aos seus aforismos.

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Diário de Oxford - Capítulo 3 (FSP, 17/11/2014)

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Oxford tem vários clubes para quem gosta de desporto. Mas há limites: 13 anos atrás, quando aqui estive pela primeira vez, os amantes do remo levantavam-se a horas obscenas e depois rapavam frio de morte na água e na neblina.

Recusei a tentação e optei por outra modalidade fisicamente exigente, mas com horários mais apropriados. Inscrevi-me no Clube dos Provadores de Vinho e, quinzenalmente, na companhia dos meus confrades, havia sempre 8 garrafas (4 de vinho branco, 4 de vinho tinto) para serem provadas com os seus vagares.

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Como vencer eleições (FSP, 11/11/2014)

Que delícia: tenho passado os últimos tempos na companhia de Quintus Tullius Cicero. O nome talvez acenda uma luz na cabeça do leitor. Cuidado: é a luz errada. 

Quintus era o irmão mais novo do famoso Marcus Cicero. E em 64 a.C., quando Marcus se candidatou ao lugar de cônsul (o mais importante cargo no “cursus honorum” da República Romana), Quintus decidiu escrever um pequeno manual – pelo menos, a maioria dos especialistas atribui-lhe a autoria – onde explicava ao irmão como ter sucesso em política. 

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