Mulheres que apanham (FSP, 18/11/2014)

Todas as mulheres gostam de apanhar. Só as neuróticas é que reagem. Assim falava Nelson Rodrigues. E assim falo eu, em jeito de provocação, ao meu auditório feminino lá em casa. 

Sem sucesso: rodeado por mulheres mais inteligentes do que eu, elas tratam de responder às provocações com outras provocações de igual calibre, irreproduzíveis num jornal de família. 
Eu, sovado e acabrunhado, encerro a discussão, fugindo para a primeira premissa: “Estão vendo? Neuróticas, todas vocês.” 

Brinco, claro. Mas depois, com o café da manhã, vou lendo notícias que ressuscitam o velho Nelson e conferem “gravitas” aos seus aforismos.

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Diário de Oxford - Capítulo 3 (FSP, 17/11/2014)

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Oxford tem vários clubes para quem gosta de desporto. Mas há limites: 13 anos atrás, quando aqui estive pela primeira vez, os amantes do remo levantavam-se a horas obscenas e depois rapavam frio de morte na água e na neblina.

Recusei a tentação e optei por outra modalidade fisicamente exigente, mas com horários mais apropriados. Inscrevi-me no Clube dos Provadores de Vinho e, quinzenalmente, na companhia dos meus confrades, havia sempre 8 garrafas (4 de vinho branco, 4 de vinho tinto) para serem provadas com os seus vagares.

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Como vencer eleições (FSP, 11/11/2014)

Que delícia: tenho passado os últimos tempos na companhia de Quintus Tullius Cicero. O nome talvez acenda uma luz na cabeça do leitor. Cuidado: é a luz errada. 

Quintus era o irmão mais novo do famoso Marcus Cicero. E em 64 a.C., quando Marcus se candidatou ao lugar de cônsul (o mais importante cargo no “cursus honorum” da República Romana), Quintus decidiu escrever um pequeno manual – pelo menos, a maioria dos especialistas atribui-lhe a autoria – onde explicava ao irmão como ter sucesso em política. 

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Diário de Oxford - Capítulo 2 (FSP, 3/11/2014)

Que tristeza: cheguei a Inglaterra há três semanas e ainda não vi Stephen Gough por aí. Quem? Falo do Caminhante Nu, que percorre as ilhas britânicas de norte a sul e que já passou anos no presídio por causa disso.

Agora, cansado das agruras policiais, Stephen levou o caso ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que não se comoveu. Os juízes ordenaram decoro e vestes. O caminhante não se conforma.

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Eça Agora! (FSP, Ilustríssima, 2/11/2014)

Existem dois tipos de escritores neste mundo. Os primeiros são como as chuvas - vêm e vão, ao sabor do tempo. Os segundos nunca nos deixam. Resistem a tudo - à estupidez dos literatos, à inveja dos pares, à passagem dos anos.

Eça de Queiroz (1845-1900) pertence ao segundo grupo: no século 19, só Camilo Castelo Branco (1825-90) rivaliza com ele. Mas a influência de Eça é incomparavelmente mais profunda: ele forjou uma linguagem nova para as gerações vindouras e praticamente fixou na memória dos portugueses o século 19 como referência perpétua para os séculos 20 e 21.

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Diário de Oxford (FSP, 20/10/2014)

 

Em Oxford, sinto-me em casa. Não pela trilogia óbvia de livros, cabeças fecundas e Laphroaig. Mas pela quantidade de pessoas que, caminhando pelas ruas, têm o hábito saudável e belo de falarem sozinhas. Algumas sorriem, outras mostram esgares de preocupação. Mas ninguém repara, ninguém critica, ninguém se transforma em bovino a olhar para o palácio. Há o entendimento implícito de que um diálogo está em curso entre duas pessoas com os mesmos gostos, os mesmos interesses, as mesmas efabulações. 
 

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"IDEIAS CONSERVADORAS" NO BRASIL: DATAS E LOCAIS

Dia 2 de Agosto, 14.30h - FLIP, Paraty, Casa Folha.

Dia 4 de Agosto, 16h - Debate-Sabatina, MIS - Museu da Imagem e do Som, São Paulo.

Dia 4 de Agosto, 18.30 - 21.30h - Lançamento do livro As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e Reacionários (Três Estrelas), Livraria da Vila, Pátio Shopping Higienópolis, São Paulo. 

 


Os macacos da vaidade (FSP, 13/5/2014)


Tenho os meus preconceitos como qualquer pessoa civilizada. Falo de preconceitos em sentido rasteiro, não em sentido conservador e clássico como o conjunto de tradições que sobreviveram aos “testes do tempo” e por isso mostraram a sua utilidade. 

Não gosto de senhoras que usam e abusam do calão (em público, não em privado). Considero o exibicionismo material – carros, jóias, roupas de grife etc. – uma forma repugnante e subdesenvolvida de conduta, comparável a cuspir no chão, usar palito ou cutucar cera do ouvido. E tendo a manter uma distância higiénica de criaturas entre os 12 e os 17 anos, ou seja, membros desse lamentável período que designamos por “adolescência”. Não sei se a velhice vai limar algumas dessas arestas. Por enquanto, os meus instintos preconceituosos são mais fortes do que eu. 

Mas existe um preconceito que, filosoficamente falando, sou incapaz de partilhar, sequer entender: o preconceito racial. A ideia de que a pigmentação da pele tem qualquer relevância moral ou epistemológica é-me tão incompreensível como exibir iguais preconceitos em relação à cor dos olhos ou à forma do cabelo (excetuando, claro, o caso perdido de Donald Trump). 

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Nós, os conservadores (EXAME - Brasil, 30/4/2014)

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«Explicar o conservadorismo é uma atitude pouco conservadora. Não há nada para explicar: quando existem valores ou instituições que sobreviveram aos testes do tempo, não é o conservador que tem de justificar essa sobrevivência. São os outros, progressistas de várias escolas ou feitios, que devem mostrar por que motivo o que existe e resiste tem de ser alterado ou destruído. No fundo, e como dizia um velho professor inglês, a diferença entre conservadores e progressistas pode ser resumida em duas perguntas. Os progressistas, confrontados com uma possibilidade de mudança, perguntam sempre. 'E por que não?' Os conservadores preferem a pergunta inversa: 'E por que sim?'

O meu livro para a editora Três Estrelas, As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e Reacionários, começa por ser uma modesta traição ao espírito conservador. Mas é uma traição pedagógica necessária porque ela procura explicar as ideias gerais que enformam esse espírito e que estão longe, muito longe, das caricaturas grosseiras que os outros fizeram sobre o assunto.

Resumindo uma longa história, o conservadorismo é o tipo de ideologia para pessoas que não estão apaixonadas por elas próprias. Não é fácil, eu sei: um dos projectos da modernidade foi colocar o indivíduo no centro do palco, alimentando nele uma importância narcísica que seria cómica se não tivesse conduzido a resultados tão trágicos.»

 

[ continua na edição de 30/4 da revista brasileira Exame ]

 

Dançando no banheiro (Folha.com, 21/4/2014)

Amigos e família andam preocupados com dois comportamentos meus recorrentes. O primeiro é uma tendência quase inelutável para adormecer no sofá. De tal forma que muitos questionam se vale a pena eu ter um quarto com cama e colchão. Respondo: "Que disparate!". Mas depois, em silêncio, reflicto. E desce sobre mim um momento de honestidade. Quando foi a última vez que eu dormi mesmo na cama?

Não sei dizer. O que sei é que adormeço no sofá, acordo de manhã –e depois, fresco como uma alface, estou pronto para o trabalho. O sofá está a arruinar as minhas costas mas a consolar a minha alma. Não consigo mais lutar contra esse vício e preciso urgentemente de ajuda especializada.

O segundo comportamento é mais problemático. Ando a rir demais. Corrijo. Conto uma piada e depois rio de forma desproporcionada. Rio, não: vou rindo, a espasmos. A conversa já virou para outros assuntos. Mas a simples lembrança da piada faz com que eu regresse às gargalhadas – e aos pedidos de desculpa por ainda estar a rir. Como se a piada fosse uma piranha genial que se agarra ao meu corpo e o suga até não restar qualquer fôlego. Estarei a enlouquecer?

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JÁ NAS LIVRARIAS DO BRASIL

Há muito não se publicava um pequeno grande livro como este (...) Que revolucionários e reacionários tenham a chance de aprender com a generosa e amigável exposição de Coutinho. E que todos nos lembremos de que o conservadorismo é, antes de tudo, um humanismo. 

Reinaldo Azevedo, colunista da Veja e da Folha de S. Paulo

 

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«Conservadorismo: quando alguém é acusado de sofrer da maleita, não se pretende afirmar que a infeliz criatura adere a um conjunto válido e racional de ideias ou valores que definem uma ideologia política. Ao conservador não se aplica o mesmo tipo de tolerância ética ou epistemológica que se concede ao liberal, ao socialista e até, Deus seja louvado, ao comunista impenitente.

O conservador é outra história. Um imobilista, dirão alguns: alguém que se opõe à mudança, a qualquer mudança, porque assim determina a sua viciosa personalidade. Ou então é um reaccionário, dirão outros: alguém que não apenas se opõe à mudança, a qualquer mudança, como pretende revertê-la de forma a regressar a um paraíso perdido que, aos olhos nostálgicos do reaccionário, é simplesmente o avesso de um mundo que se encontra do avesso.

Para o fanatismo progressista, o conservador não é uma alma que persiste no erro. É, resumidamente, um herege. E não será de excluir, seguindo as lições do preclaro Theodor Adorno em The Authoritarian Personality (1950), que se escondam outros vícios por detrás da heresia: uma personalidade com inclinação para o autoritarismo e, já no século XX, para as experiências fascistas que destroçaram a Europa. Recapitulando: conservador, imobilista, reaccionário, autoritário, fascista. Para quê perder tempo com pormenores?

Este livro procura perder tempo com pormenores. Porque se Deus está nos detalhes, o demónio também está. As caricaturas que usualmente distorcem o conservadorismo que aqui se apresenta só podem ser explicáveis, mas não justificáveis, por ignorância ou má-fé.»

 

     Trecho de As Ideias Conservadoras - Explicadas a Revolucionários e Reacionários

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Tudo é vaidade (FSP, 8/4/2014)

Qual a pergunta mais idiota que é possível ouvir quando temos uma biblioteca generosa? Exacto, leitor: “Você já leu tudo isso?” 

Engolimos em seco. Respiramos fundo. E depois explicamos, pela décima, centésima, milésima vez que uma biblioteca não é uma colecção de livros lidos. As bibliotecas são feitas de livros que lemos no passado, que consultamos no presente e que um dia, talvez, leremos no futuro. Ou que alguém lerá por nós. 

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Queimando hereges (FSP, 1/4/2014)

A esquerda gosta de romantizar o povo. Exceto quando o povo é pouco romântico e expressa o que realmente pensa sobre o mundo.

Uma enquete do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) horrorizou algumas consciências "finas" com as opiniões do povo sobre a violência contra as mulheres. Simplifico: dentro de casa, é feio bater. Mas, fora de casa, quando o crime é sexual, as mulheres têm culpa no cartório. Números: 65% dos brasileiros concordam que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Um aiatolá no Irã não diria melhor. E 58,5% consideram que "se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros". Um aiatolá no Irã, idem.
 
É justo concluir que, para a maioria dos brasileiros, o ideal seria que as mulheres usassem burca. O clima brasileiro não permite essas mumificações? Isso não é desculpa. Quem aguenta o calor persa, também aguenta o calor tropical.

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A voz da razão (CM, Março de 2014)

Baixar a bola

Existe no jornalismo brasileiro uma expressão que aprecio: ‘levantar a bola’. Não, não é sobre futebol; é sobre a submissão cobarde de um jornalista que se limita a ‘levantar a bola’ para que um político a possa chutar como quiser. Em Portugal, basta passar os olhos pelas televisões para comprovar a popularidade da prática: o jornalista não existe para questionar o político-comentadeiro com a respectiva folha de serviço. Ele apenas ‘levanta a bola’, deixando o interlocutor à solta com as suas fantasias e ‘inverdades’.

José Rodrigues dos Santos não entrou no jogo. E fez perguntas a José Sócrates para as quais o dito cujo ‘não estava preparado’. O que se percebe: nós só nos preparamos quando existe a possibilidade de não termos um espantalho à frente. Ao recusar esse papel, Rodrigues dos Santos mostrou que ‘levantar a bola’ é uma forma triste dos seus colegas baixarem a deles.

 

Época de saldos

As sondagens para as europeias oferecem espectáculos dignos de nota. O primeiro é a vitória modestíssima do PS sobre a coligação PSD/CDS, um fenómeno sem paralelo na Europa da austeridade. Mas existe uma comédia adicional que não cessa de me divertir: o desaparecimento da extrema-esquerda e o desvario que corre por aquelas bandas.

O Bloco, que em 2009 elegeu 3 eurodeputados, corre o risco de não eleger nenhum. Um cenário deprimente que levou a direcção bicéfala a incluir na lista ‘independentes’ acéfalos, na esperança lorpa de comover o público com alguns adereços de enfeite.

No Livre, a coisa não melhora. E Rui Tavares, que provavelmente só regressará a Bruxelas como turista, abriu o partido a eleições ‘primárias’, uma forma primária de mendigar a simpatia da sua tribo. 

Sem discurso ou alternativa para a crise, a extrema-esquerda está hoje em saldos. Para evitar a liquidação total.

 

Uma farsa

Parece que existem ‘divergências insanáveis’ entre o PS e o PSD. Com muito esforço, não as consigo ver. Verdade que Seguro critica a ‘austeridade’ e, nas viagens pela província, usa a descida do IVA na restauração para enfeitar a lapela. Mas, com rigor, que ‘divergências insanáveis’ serão essas? 

Para começar, não são ‘divergências’ sobre o Tratado Orçamental: PS, PSD e CDS assinaram-no sem hesitar e Seguro, tal como Passos e Portas, jura cumprir os limites do défice e da dívida com fanático aprumo. E agora, pela boca de Óscar Gaspar, a confissão que faltava: no governo, os socialistas não vão repor os cortes em salários e pensões que o actual governo praticou. A ‘situação do país’, de facto, não o permite. 

A menos que as ‘divergências insanáveis’ se prendam com questões de vestuário, entra pelos olhos de um cego que a guerra entre PS e PSD é uma farsa eleitoral muito mal amanhada.

 

Abusos

Não li e não gostei de nenhum dos projectos partidários para ‘regular’ a cobertura mediática das campanhas eleitorais. Razão simples: não compete a nenhum partido enfiar a foice na seara das redacções. Isso é constitucionalmente problemático? Admito. Mas também admito que os nossos tribunos já deviam ter removido do artigo 113º a alínea b) do estapafúrdio ponto 3. Onde se garante ‘igualdade de oportunidades e de tratamento das diversas candidaturas’.

Quem decide o ‘tratamento’ mediático das candidaturas a concurso não é, logicamente, quem participa no concurso. Em sociedades livres, são os profissionais do ramo que, dotados de massa cinzenta, filtram e apresentam o que consideram relevante para o seu público.

Se os políticos não gostam do arranjo, problema deles. No limite, podem sempre mudar de profissão e aplicar nas redacções os delírios igualitários que cozinham no Parlamento.

 

Chicotes

Provocou forte histeria um manifesto de 70 ‘personalidades’ a pedir a reestruturação da dívida. Não percebo porquê. Para começar, é normal que em democracias pluralistas as pessoas assinem os manifestos que entendem. E, para acabar, não foi por causa do manifesto que os juros deixaram de descer. E porquê?

Porque os ‘mercados’ sabem que o essencial da nossa política passa por Bruxelas (e Berlim), não pelas loucuras de Lisboa. E o que é válido para o manifesto, é válido para o ‘consenso’: depois de PSD, CDS e PS terem assinado o pacto orçamental, é indiferente se Passos e Seguro se sentam à mesma mesa para conversar ou jogar às cartas. O chicote sobre as nossas contas públicas não vai conhecer cores partidárias no futuro. Lamentável esta perda de soberania?

Em teoria, talvez. Na prática, e com três falências em 40 anos, talvez não seja má ideia que haja alguém que governe quem nos governa.

 

Ditaduras

As europeias aproximam-se e o PS começa a dar sinais de preocupação e delírio. Francisco Assis, em atitude chocarreira que não lhe fica bem, comparou as políticas do actual governo com as políticas da ditadura. Seguro afinou pela mesma cartilha: as críticas de que foi alvo pela sua palestra em Londres fazem lembrar as práticas do Estado Novo. Que denunciava como traidores à pátria todos aqueles que discordavam do dr. Salazar. 

Não vale a pena sublinhar o óbvio: comparar um governo democraticamente eleito com um regime autoritário devia envergonhar esta parelha. Mas se isto não envergonha Assis ou Seguro, seria pelo menos aconselhável ouvir do PS as medidas alternativas que propõe para cortar despesa e honrar os compromissos internacionais.

Sobre isto, nem uma palavra. Ou talvez tenha havido e nós não sabemos. No fundo, no fundo, o lápis azul da censura nunca foi meigo com a oposição.