Manoel de Oliveira (1908 - 2015) - FSP, 2/4/2015

Manoel de Oliveira é um caso singular na história do cinema. Seria sempre um caso singular por sua longevidade —morrer aos 106 anos, em plena atividade como diretor, depois de oito décadas de trabalho e mais de 50 longas-metragens, é uma proeza que dispensa comentários. 

Mas Oliveira não é só uma curiosidade biológica. Como diretor, Oliveira procurou um cinema que fosse a síntese de todas as restantes artes, em especial do teatro e da literatura.

 

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Viver para Contar (FSP, 31/3/2015)

Tenho um amigo paulistano, divertidíssimo, que tem medo de voar. Teoria dele: "Os pilotos são humanos, certo?". Certo, camarada. "Então eles não são diferentes de mim ou de você." 

Tradução: eles bebem, ressacam; medicam-se, intoxicam-se; têm desgostos amorosos, pensamentos suicidas. Ou, para não sermos tão dramáticos, noites mal dormidas. "Como é possível entrar num avião quando o mestre de cerimônias é uma besta como eu?" 

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O que se salva?

Gosto tanto de cinema que tenho uma tolerância infinita com filmes maus. Ou, pelo menos, assim-assim. É uma fraqueza, que em público confesso. Quando o assunto é cinema, e mesmo que esteja a ser torturado na cadeira da sala, a minha pergunta nunca é "quando é que esta merda acaba?", mas antes "será que alguma coisa se salva?" Com a idade, e sabendo o que custa criar alguma coisa (um texto, por exemplo), sou como aqueles nadadores-salvadores que se lançam à água na esperança de trazer algo para terra - uma interpretação, uma boa história (ou, pelo menos, uma ideia que prometia uma boa história), quem sabe a banda sonora, ou a fotografia, ou... Este Murder in the First , que nunca tinha visto, é um exemplo. Fraquinho, fraquinho. Mas Christopher Young, um compositor menor, deu a este filme a única coisa que ficará dele. Ouvidos treinados dirão que o tema evoca Pietro Mascagni e o "Intermezzo" da Cavalleria Rusticana. Talvez. Mas não é crime roubar aos melhores. Crime é roubar aos piores. 

A servidão voluntária (FSP, 10/2/2015)

Sazonalmente, recebo mensagens de leitores que me perguntam por livros fundamentais no mundo da política. Respondo. Melhor, vou respondendo. E é provável que, nas canseiras do dia, os meus disparos tenham alvos diversos: um Aristóteles aqui; um Maquiavel ali; um Locke mais além. Mas quando penso demoradamente no assunto, consultando os meus neurônios com uma contemplação digna de Montaigne, percebo que nunca sugeri um amigo dele, autor de um ensaio crucial na biblioteca de qualquer cavalheiro que se preze.

Verdade que o autor em questão escreveu o texto na juventude para depois o renegar. Não vou especular sobre esse gesto (outras histórias). Exceto para dizer que o mal estava feito e, no meu caso, a cabeça do cronista já estava formatada pelas palavras do sr. Étienne de la Boétie (1530 - 1563).

 

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Diário de Oxford - Capítulo 8 (Folha.com, 9/2/2015)

Os livros que já emprestei (e perdi) devem ser comparáveis aos livros que conservei. Difícil medir com rigor. Sei apenas que conto pelos dedos de uma mão as obras que tiveram ida e volta. 

Durante uns tempos, ponderei inaugurar um esquema de controle: a pessoa levava o livro, assinava um documento – ou então, em alternativa, deixava qualquer coisa em troca. Um pedaço de carne talvez se ajustasse à natureza literária do negócio. Felizmente, não é preciso escolher esses caminhos perversos: na Turl Street, no centro da cidade, encontrei uma loja que vende os carimbos que procurei toda a vida.

 

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NAÇÃO VALENTE (CM, 6/2 - 8/2/2015)

O homem invisível

António Costa concedeu uma entrevista para partilhar as suas soluções de governo e eu temi que ele aparecesse sem gravata. Falso alarme. Depois de uma semana difícil para o Syriza, Costa apareceu de gravata. E as soluções? 

Para começar, não haverá perdões da dívida, o que me parece prematuro: lá porque os gregos se estamparam contra a parede não significa que os portugueses terão igual destino. Seja como for, o caminho passa por mais ‘solidariedade’ europeia em coisas como taxas de juro; injecção de liquidez pelo BCE; aplausos redobrados ao Plano Juncker de investimento – e, nas horas livres, chamar nomes feios à ‘austeridade’. 

No fundo, Costa apresenta como suas algumas soluções que não são suas – e que também não substituem o trabalho de casa que é preciso fazer para reformá-la. Parece-me bem: repetindo banalidades e ocultando contrariedades, a estratégia de Costa é chegar invisível às eleições deste ano. 

 

Respeitinho

Paula Teixeira da Cruz teme que a independência do poder judicial esteja em causa se o PS ganhar as eleições. Minha nossa: como é possível afirmar uma coisa destas quando todos sabemos que o comportamento de muitos socialistas tem sido exemplar desde a detenção de Sócrates? Basta ver a forma respeitosa como se dirigem ao juiz Carlos Alexandre. Nunca ouvi uma crítica ao seu trabalho; uma insinuação difamante à sua independência; um insulto à sua soberania. E mesmo a polémica frase do dr. Soares – ‘Carlos Alexandre que se cuide’ – parece-me mais um conselho, e não uma ameaça: o dr. Soares, em gesto que se aplaude, deseja que o magistrado cuide da sua saúde para levar a investigação até ao fim.

Se o PS ganhar as eleições, prevejo o contrário do que afirma a ministra: o mesmo respeito pela justiça que Sócrates mostrou durante os seus consulados. E, já agora, o mesmo respeito que a justiça mostrou por ele. 

 

Nevoeiros

Julgava eu, na minha inocência, que a candidatura a um alto cargo político era uma decisão pessoal e solitária – um exercício de vontade que precede qualquer cálculo ou pressão. Enganei-me. Rui Rio tem uma interpretação distinta das coisas. Disse ele esta semana que pondera regressar à política se sentir ‘um desejo muito grande’ das pessoas. Um desejo pequeno, ou até assim-assim, não chega. Tem que ser ‘grande’, o que permite imaginar o povo português, de joelhos pelas ruas, gritando o nome do salvador e chorando copiosamente por ele.

Eu, pela parte que me toca, já estou a afinar a ronca. Mas pergunto honestamente se Portugal merece mesmo Rui Rio, perturbando tão excelsa figura com os seus reles sarilhos. Tenho dúvidas. Tantas e tantas que o melhor talvez seja conter o choro, não vá ele assustar o cavalo branco em que Rui Rio se passeia por aí à espera de uma manhã de nevoeiro. 

 

 

O triunfo dos porcos (FSP, 3/2/2015)

Todos os domingos, presto homenagem ao mundo lusófono. Como? Fazendo um churrasco aqui na Inglaterra, embora os meus vizinhos talvez não apreciem o gesto. Por causa do cheiro? Não. Por causa das carnes. Os meus vizinhos são a Oxford University Press, que pelos vistos tem problemas com "porcos", "salsichas" e outros produtos associados. 

 

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NAÇÃO VALENTE (CM, 30/1 - 1/2/2015)

O problema dos ¾

Como explicar o impasse entre Berlim e Atenas? Com o problema dos ¾, claro: ¾ dos gregos não querem sair do euro; e ¾ da dívida grega está nas mãos dos outros europeus. Isto significa que os gregos querem ficar no euro desde que nós paguemos as contas. 

Acho bem. Os portugueses, nos últimos anos, perderam empregos e salários. E, em matéria fiscal, a palavra é ‘extorsão’. Mas eu confio na generosidade do meu povo, que pagará sempre proporcionalmente mais (550 euros por cabeça) para que os gregos tenham electricidade de borla; salários aumentados; reintegração de funcionários públicos despedidos – no fundo, as benesses que nos estão interditas.

Só espero que o Bloco de Esquerda (oficial) e o Bloco de Esquerda (informal), que tomou conta do PS, apresente esta solidária factura ao país. Tenho a certeza que o país, em homenagem ao falecido Demis Roussos, cantará em conjunto o imortal ‘Goodbye, my love, goodbye’. 

 

Velhas bestas

A vida não está fácil para os judeus da Europa. Em França, 6 mil fizeram as malas em 2014 e zarparam para Israel. Este ano, e depois dos ataques de Paris, a coisa pode chegar aos 15 mil. Em Inglaterra, o êxodo ainda não faz manchetes; mas o governo já mandou policiar com afinco sinagogas e bairros judaicos, não vá o terrorismo islamita tecê-las. Perante esta velha besta, que nunca desaparece completamente (o historiador Paul Johnson chamou ao ‘antisemitismo’ uma doença intelectual incurável), é de aplaudir a decisão do governo português em conceder a nacionalidade a descendentes de judeus sefarditas que queiram procurar vida ou refúgio em Portugal. Nada disto apaga as expulsões passadas, que contribuiram para o nosso imemorial atraso? Facto. Mas consola saber que, 70 anos depois de Auschwitz e com a velha besta novamente à solta, existe um pequeno país da Europa Ocidental que tem vergonha na cara.

 

Mais álcool, Zé

Miguel Poiares Maduro disse em tempos que o Bloco de Esquerda talvez mandasse mais na RTP do que o Governo. Sabemos hoje que estava errado. Se o BE mandasse na RTP, jamais Rodrigues dos Santos teria sido enviado para Atenas, disposto a dissertar sobre a corrupção endémica da Grécia e o papel da mesma na tragédia em curso. No lugar dele teria ido um dos nossos ‘jornalistas de causas’ que, indiferente à realidade, teria escrito um longo poema de amor à Praça Syntagma, como no passado se escreveram textículos do género à ‘Praça Tahrir’, símbolo da gloriosa ‘primavera’ do Cairo.

Claro que, para os pessimistas, talvez a ‘primavera grega’ venha a ter o mesmo desfecho da egípcia. Nesse caso, pede-se apenas a Rodrigues dos Santos que nos poupe à verdade, optando antes por reportagens ‘culturais’ sobre o fabrico da ‘retsina’. Como alguém dizia, a realidade é sempre uma ilusão de óptica motivada pela ausência de álcool.  

 


Conversas de cama (FSP, 27/1/2015)

O que fazer com as mulheres que voluntariamente aparecem na página 3 do Sun para partilharem com os súditos do reino as curvas e contracurvas das respectivas topografias? Não será essa opção uma atitude de "independência feminina" – a aplicação, na prática, do bordão feminista "no meu corpo mando eu" que é usado, por exemplo, nas discussões sobre a legalização do aborto? Ou essa "autonomia" fundacional não se aplica no caso em apreço?

A questão não é simplesmente "filosófica". Porque foram várias as modelos da página 3, presentes ou passadas, que consideraram o fim das fotos de topless um atentado à autonomia das mulheres. "Quem são as feministas para decidirem em meu nome?", perguntaram elas. Não será essa atitude uma forma de paternalismo perfeitamente comparável ao machismo que as feministas dizem combater?

 

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Diário de Oxford - capítulo 7 (Folha.com, 26/1/2015)

Todos conhecemos a obsessão dos ingleses com o estado do tempo. Eu próprio, que sou indiferente a variações climatéricas, tive que começar a escutar o boletim meteorológico de manhã para ter conversa o resto do dia. 

Agora que estamos em janeiro, a saga continua. Mas com uma nova personagem em cena: a neve. A neve que não chega. A neve que vai chegar. Diariamente, nas conversas banais, eu começo com o primeiro verso: "Está frio." O outro, feliz por encontrar um cúmplice, responde: "E dizem que vai nevar." Então olhamos os dois para o céu, silenciosos e tementes, em busca de um sinal redentor. Não sei onde Beckett teve a inspiração para o seu Godot que nunca aparece. Mas não ficaria espantado se tivesse acontecido com as conversas meteorológicas que existem por aqui.

 

[ continua aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2015/01/1580437-diario-de-oxford---capitulo-7.shtml ] 

NAÇÃO VALENTE (CM, 23-25 de JANEIRO)

Rambos

Assim ninguém se entende: às terças, Cavaco Silva é um ‘salazarista convicto’, afirma o dr. Soares. Às quartas, o mesmo dr. Soares pede ao Presidente da República uma tomada de posição sobre Sócrates. Que posição será essa? Uma posição branda não serve: criticar a prisão ‘por motivos políticos’ significa dar uma canelada na separação de poderes e transformar o Estado de Direito numa farsa. É pouco.

A solução devia incluir uma acção militar, com o dr. Cavaco a chefiar um pelotão até Évora com o heróico propósito de libertar o detido 44. Experiência, aliás, não lhe falta: ao contrário do dr. Soares, parece que o dr. Cavaco foi à tropa, cumprindo humildemente as obrigações da ditadura. Se o dr. Cavaco voltar a calçar as botas para salvar o prisioneiro a quem as querem tirar, talvez o dr. Soares reconsidere a sua posição e, em próxima coluna, faça um elogio sentido à ditadura pelos nobres soldados que ela formou. 


Crueldades

Falava há tempos com um europeísta convicto que me dizia em surdina: uma vitória do Syriza era a melhor coisa que podia acontecer à Europa. Porquê? Simples: as pretensões do sr. Tsipras de descartar metade da dívida teria como consequência o regresso ao dracma. Depois, com o desastre social e económico em Atenas, a Europa podia tranquilamente apagar os fogos radicais que crepitam por aí, apontando para Oriente e afirmando: ‘Estão a ver?’

Infelizmente, o PS não fala com a boca fechada. Prefere mantê-la aberta, olhando com ‘simpatia’ para a vitória da extrema-esquerda no país. De duas, uma: ou a ‘simpatia’ é cínica; ou, pior ainda, é perfeitamente honesta – e o pessoal do Rato imagina que os eleitorados da Europa marcharão para o barbeiro, cantando e rindo, prontos para o seu ‘corte de cabelo’. Qualquer das hipóteses só leva ao mesmo desfecho: os gregos verem-se gregos. E isso é de uma crueldade bizantina.


Hiroshima,
meu amor

Diz o Bloco de Esquerda que o governo tem uma ‘estratégia monstruosa’ para destruir os transportes públicos. A acusação, certeira e pungente, junta-se assim a outras acusações que se acumularam nos últimos anos. O governo, pelas minhas contas, desejou destruir: as escolas; os hospitais; a segurança social; a ciência; os tribunais; os polícias; as empresas; os trabalhadores; os jovens; os desempregados; os reformados; os artistas; os ‘gays’. A estratégia, no fundo, passaria pela total destruição do país e dos portugueses que existem dentro dele. No final da razia, o mais provável era o primeiro-ministro autodestruir-se e levar com ele ministros, secretários de Estado, assessores, motoristas e a senhora da limpeza que vai a S. Bento às terças e quintas. 

Assim se percebe por que motivo o dr. Passos estava a ‘lixar-se’ para as eleições. De facto, sem país e sem portugueses, as eleições já não são precisas para nada.   

 

 

O Guerreiro das Palavras (FSP, Ilustríssima, 25/1/2015)

Quando olhamos para a vitória das potências aliadas em 1945, encontramos várias explicações para o feito. A participação americana a partir de 1941 foi crucial; o sacrifício soviético foi mais crucial ainda; e, por falar em União Soviética, a decisão de Hitler em rasgar o pacto de não-agressão Molotov-Ribbentrop e tentar o mesmo que Napoleão antes dele (a invasão russa), teve o mesmo desfecho: uma humilhante derrota. Mas em 1940, quando Londres combatia ainda sozinha, a guerra só não foi perdida porque Churchill era um brilhante leitor, escritor - e ator. 

Essa, pelo menos, é a tese do mais interessante livro sobre Churchill que surgiu nos últimos tempos para assinalar os 50 anos da morte. Intitula-se "The Literary Churchill" [Yale University Press, 528 págs., R$ 77,83 e-book], e o autor, Jonathan Rose, pretende mostrar como a política e a literatura estiveram intimamente ligadas na carreira do estadista. De tal forma que os seus objetivos políticos, e em especial a resistência face a Hitler, foram profundamente moldados pelos livros que ele lera e, não menos importante, pelas peças de teatro a que assistira. 

 

[ continua aqui: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/01/1578988-churchill-o-ator-que-liderou-o-reino-unido.shtml ] 

«JE SUIS WINSTON?»

Passam hoje 50 anos sobre a morte de Churchill e os jornais prestam as homenagens devidas. Uma pergunta, porém, é inescapável: Churchill seria eleito nos nossos dias? Verdade que, depois da vitória sobre Hitler, Churchill perdeu as eleições de 1945 para os trabalhistas. Mas isso explica-se por razões circunstanciais: o cansaço do povo com a guerra e as promessas ‘assistencialistas’ de Clement Attlee convidavam a um virar de página. Apesar de tudo, Churchill ainda ganharia umas eleições (em 1951). E hoje? 

Hoje, Churchill não sobreviveria à mediocridade política reinante. Nas ‘democracias mediáticas’ em que vivemos, ter alguém cujos vícios (a bebida; a rudeza; uma certa relutância em praticar ‘jogging’) estavam ao nível das suas virtudes (a erudição; a coragem; a independência de espírito) seria a morte do artista.

Aqueles que declaram ‘Je suis Winston’ seriam os primeiros a votar no candidato do lado. 

 

Vidas de sucesso (FSP, 20/1/2015)

Uma amiga trabalhou há uns anos em programa televisivo para revelar novos talentos. As histórias que ela conta são hilariantes –e arrepiantes.

Para começar, existe o número obsceno de candidatos —centenas, milhares— que vêm do país inteiro para conseguir os clássicos 15 minutos (ou serão 15 segundos?) de fama.

Com eles, vêm as mães —sim, normalmente são as mães que acompanham as crianças e esperam que o sucesso dos filhos possa ser uma compensação pelo sucesso que elas não tiveram. Para o espírito do tempo, o sucesso é a suprema felicidade. O anonimato, o insuportável anonimato, a marca vergonhosa da infâmia.

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Resposta a Slavoj ZizeK (FSP, 18/1/2015)

Slavoj Zizek tem razão: depois dos massacres de Paris, é preciso coragem para pensar. Mas alguém deveria ter explicado a Zizek que coragem, por vezes, não chega. É preciso ter algum material na massa cinzenta para realizar tal tarefa.

O texto de Zizek alimenta as minhas dúvidas: ele é contraditório, historicamente relapso - e, no essencial, apenas debita a velha cartilha totalitária de que o "liberalismo", pela sua intrínseca "fragilidade", é uma presa fácil para o terrorismo islamita. Se eu tivesse lido o texto de Zizek sem conhecer a verdadeira autoria, diria que alguém tinha ressuscitado Carl Schmitt, o ilustre jurista do Terceiro Reich, e as suas considerações nefandas sobre a democracia liberal.

[ continua aqui: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/01/1575785-nao-e-o-ocidente-que-deve-mudar-mas-o-isla-diz-joao-pereira-coutinho.shtml ] 

 

NAÇÃO VALENTE (CM, 16-18 de Janeiro)

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Profetas da desgraça

A eurodeputada Ana Gomes não concorda com a nova capa do Charlie Hebdo. É uma ofensa desnecessária ao Profeta, diz ela, repetindo a posição dos fundamentalistas. Difícil discordar: sobre a capa e, já agora, sobre as causas do massacre em Paris, que a senhora depositou à porta da "austeridade". Sei do que falo. Os meus vizinhos tiveram cortes nos salários com o diabólico governo Passos. Ficaram irreconhecíveis. Ele, com as últimas poupanças, comprou o Corão e uma bússula para se orientar para Meca. Ela começou por usar véu e depois passou para a burqa. Só não asfixiou porque o INEM interveio a tempo. 

Mas o caso mais problemático foi o filho, que me encontrou na rua e perguntou onde comprar uma Kalashnikov. "Ou isso, ou emigro", disse ele. Depois de meditar um pouco, arrisquei: "O Leroy Merlin costuma ter umas coisas muito jeitosas."

O rapaz lá foi. Nunca mais o vi. É legítimo esperar o pior.

 

Só uma voltinha

O governo "neoliberal" de Passos decidiu privatizar a TAP. Privatizar, vírgula: semi-privatizar, oferecendo 66% da empresa e algumas condições irresistíveis aos interessados. Ainda não sabemos todos os pormenores da coisa. Mas parece que não haverá despedimentos durante 30 meses e, quem levar a companhia, será devidamente tutelado pelos sindicatos nas decisões estratégicas a tomar. 

Isto, que para alguns é muito, a mim parece-me pouco. E ficaria seriamente desapontado se o governo não tivesse garantido a cada funcionário da TAP – do mero bagageiro à hospedeira de bordo – a possibilidade de tripular um avião de vez em quando, só para impressionar a família e os amigos. A "paz social" também se faz destes pequenos gestos. E estou certo que os compradores internacionais, que já devem vir em manada para Lisboa, ficariam ainda mais rendidos com uma companhia onde ninguém discrimina ninguém.

 

Não há melhor

Uma projecção da Eurosondagem mostra que o PS caminha para a vitória. Mas a vitória não será absoluta e, pior ainda, os partidos do governo, em vez de descerem, sobem. A coisa, compreensivelmente, caiu mal em certos estômagos socialistas, para quem o Seguro os deixava inseguro. António Costa, pelo contrário, faria um trabalho completo – e com happy ending no final. 

Com a devida vénia ao pessoal do Rato, não é a liderança pífia do PS que me alegra. Muito menos a subida do PSD e do CDS. O que deve alegrar um português racional é olhar para a sondagem e verificar que partidos populistas ou radicais continuam no seu devido sítio, ou seja, reduzidos a uma meritória insignificância. É pouco?

Não é. E uma viagem pela Europa – do "Podemos" espanhol ao "Syriza" grego – só serve para confirmar a sanidade da raça: a "austeridade" dói; mas os delírios de quem promete fantasias ainda podem doer mais. 

Gigantes no céu

Oxford tem um céu baixo. Como se existissem gigantes sentados sobre as nuvens, o que não seria de espantar: Jonathan Swift, Adam Smith, Oscar Wilde, T.S. Eliot, Terence Rattigan - a lista de ilustres fantasmas que por cá passaram não tem fim. Deve ser por isso que Stephen Sondheim, e em especial este tema de "Into the Woods", casa tão bem com as minhas caminhadas matinais. Irónico: pertence a um nova-iorquino a mais perfeita melodia sobre este lugar. Espero que os gigantes não se importem. 

Diário de Oxford - Capítulo 6 (Folha.com, 29/12/2014)

Nunca fui poeta. Como dizia um humorista português, eu sempre fui mais prosa. Mesmo na adolescência, quando as hormonas exigiam rimas, eu optava pela narrativa. 

Tudo isso pode mudar. Colegas ingleses introduziram-me à história e à técnica do "clerihew". O nome vem de Edmund Clerihew Bentley, que inventou pequenos poemas para matar o tempo antes que o tempo o matasse a ele. 

 

[ continua aqui ]