NÃO É INVEJA, RAPAZES. Podem descansar o sarrafo. É uma questão de justiça. Eu não admito - melhor: eu não posso admitir que o sr. João Pereira Coutinho se passeie por aí com um nome que não lhe pertence. É uma afronta. É um roubo. Alimenta confusões a despropósito.
ACORDO relativamente feliz, descarrego o correio electrónico e um leitor, particularmente inflamado, acusa: «Agora percebo tudo, sr. João Pereira Coutinho!». «Tudo», perguntam vocês? Sim, «tudo», diz ele. De acordo com o cavalheiro, eu tenho por hábito vergastar pessoas neste jornal porque vivo confortavelmente escondido atrás da minha fortuna pessoal, dos meus jactos privados, das minhas ilhas no Brasil, da minha frota automóvel e dos meus vastos negócios na banca e na comunicação. Lemos o que lemos e pensamos: mais um maluquinho à solta que confunde a minha caixa de correio com o divã do psiquiatra. Infelizmente, não é caso isolado. Às dez da manhã, o meu gravador de chamadas entupiu. Amigos que não vejo há séculos tratam de pedinchar, com um desconfortável tom de gozo, «uma voltinha no jacto» e «um fim-de-semana em Angra dos Reis». E uma namorada que não deixou rasto - nem saudades - voltou subitamente a aparecer em cena, pronta para «marcar um jantarinho» e «reviver os bons velhos tempos» que, obviamente, só existem na cabeça dela. É o mundo inteiro preparado para me enlouquecer. E para me enlouquecer na maior dos impunidades. Então eu saio de casa, com o firme propósito de não fazer a vontade ao mundo, e deparo com o objecto do crime - a primeira página da revista Visão e as palavras assassinas: «João Pereira Coutinho: O Milionário Desconhecido».
CALMA, povinho. Não é novidade. Há muito tempo que recebo, na redacção deste jornal, correspondência variada que não é para mim. É para o outro. Só para o outro. Sempre o outro. Convites, festanças, simples mensagens de admiração. Isto, cautela, nunca me incomodou. Sempre achei que, com o tempo, talvez o outro tivesse emenda e tratasse de corrigir o abuso. Infelizmente, o sr. João Pereira Coutinho não tenciona desfazer o abuso. Pior: o sr. João Pereira Coutinho tenciona exibir-se por aí, com total autoridade, utilizando abusivamente o meu nome e, presume-se, a minha imaculada pessoa para cumprir, com sucesso, os seus múltiplos negócios. Eis o problema central deste drama. Eu não abriria o bico se o sr. João Pereira Coutinho fosse suficientemente discreto - e, confesso, suficientemente remendado - para não alardear em público uma titulatura que, convenhamos, possui uma beleza patrícia e a marca distintiva da honradez, combinação irresistível no mundo empresarial. Mas o problema é mais grave e ganha contornos - temo bem - judiciais. Sejamos honestos: até que ponto o nome «João Pereira Coutinho» não foi decisivo para a fortuna que João Pereira Coutinho, o outro, foi construindo nos últimos anos? Escusam de debitar evidências: o nome «João Pereira Coutinho», pela força hercúlea que ostenta, pela beleza do som, pela natureza onírica do fraseado, pelo arquifonema presente, é a principal razão do sucesso de João Pereira Coutinho. E, se assim é, acho que chegou a altura de colocarmos a questão sacramental: e eu? Sim, eu? Qual deve ser a minha parte nesse sucesso? Ou, se preferirem, que fatia do bolo me cabe? Nenhuma? Isso é que era bom.
EU NÃO TENCIONO assustar o sr. João Pereira Coutinho com processos judiciais, legiões de advogados famintos e a intervenção, previsível, do mundo intelectual português. Acho que podemos resolver isto como pessoas civilizadas, em privado e sem espectáculo público. Longe de mim sugerir ao sr. João Pereira Coutinho o valor do cheque ou da transferência bancária. Cavalheiros não falam de dinheiro - e eu não tenciono tocar nessa reles matéria, pela qual sempre alimentei o maior desprezo. Também não vou sugerir ao sr. João Pereira Coutinho a partilha do castelo no Brasil, do belíssimo jacto ou da frota automóvel, que faria as delícias dos aficionados. Para que conste, abomino o calor brasileiro, tenho medo das alturas e sempre detestei conduzir. Mas, sem pretender ser exaustivo, aqui fica uma pequena lista que, se Deus quiser, pode colocar uma pedra sobre o assunto e, como no filme do Bogart, iniciar a aventura de uma bela amizade. Se o sr. João Pereira Coutinho tiver a fineza de anotar, aqui vai:
uma casa nos arredores de Londres; um apartamento (razoável) junto à Via Veneto, em Roma; conta corrente na Davies & Son de Savile Row (roupa de Inverno) e na Brioni (Verão); fundo permanente para aquisição de livros na Politico's (Londres), na Blackwell's (Oxford) e na Barnes & Noble (Nova Iorque);entradas gratuitas no Madison Square Garden para os combates do título;uma suite no Carlyle para acompanhar os combates no Madison; quartos para os meus amigos, amigas e eventuais amantes; mesa posta no Daniel; cinquenta caixas do melhor Château Margaux;assistência médica 24 horas por dia;assistência farmacêutica 24 horas por dia;assistência eclesiástica 24 horas por dia;um Steinway;Michelle Pfeiffer sobre o Steinway;a chefia de uma Spectator portuguesa.
Parece-me bem.
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In Vida Independente: 1998 - 2003 (O Independente, 2004)