HUGH GRANT
30 Agosto 2002 / O Independente

LEIO entrevista a Hugh Grant e confirmo as melhores suspeitas. O rapaz é bom. Mais: o rapaz é uma instituição britânica que interessa preservar. A propósito do seu último filme, comédia soft sobre um solteirão vazio e egocêntrico que encontra redenção num menino pré-púbere com mãe depressiva (violinos, violinos), perguntam a Hugh Grant se ele, tal como a personagem, não tenciona constituir família. Hugh, 40 anos, com aspecto de 30, confessa que a ideia tem algum appeal. O seu irmão, aliás, já iniciou as hostilidades com mulherzinha e prole alargada. Mas ele, Hugh, ainda não. Por enquanto. Por enquanto, Hugh Grant prefere «tomar martinis no bar do Ritz». Eu repito: martinis no bar do Ritz. Lemos o que lemos e sentimos que a civilização está salva. A começar pela britânica.


CONFESSO que tive medo. Visitava Londres com regularidade e regressava positivamente horrorizado com a grotesca juventude inglesa, avessa ao sabão, à gramática e às maneiras. O caso, aliás, era tão grave que mereceu discussão alargada na imprensa. «Por que motivo os nossos jovens são tão repelentes?», perguntava Theodore Dalrymple na Spectator, aplicando as teorias de Lombroso à canalha doméstica e confirmando as teses do teórico italiano: os jovens britânicos tinham na cara uma propensão dramática para a marginalidade.
POIS BEM. Hugh Grant é um sinal. Um bom sinal. E uma contra-revolução a caminho. As suas palavras, aparentemente banais, reflectem uma atitude. Grande parte da cultura de massas tende para a vulgaridade - e as novas elites, sobretudo as elites do espectáculo, sentem uma repugnância instintiva pela distinção. George Walden explicou isso num livrinho simpático, intitulado The New Elites, que aconselho: para ele, as novas elites são aquelas que, longe de constituírem referência para a manada, visam sobretudo confundir-se com ela, adoptando os seus reles comportamentos. Seria impensável que um outro actor de cinema - um Tom Cruise, um Brad Pitt - optasse por «martinis no bar do Ritz». Isso seria antidemocrático e antipopular, dois pecadilhos imperdoáveis nesta cultura adolescente e plebeia, tiranizada pelo inevitável impulso igualitário. Com Hugh Grant, não. Com ele, não há cervejas em discotecas pelintras. Mas martinis no bar do Ritz.

DEUS seja louvado.

 

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In Vida Independente: 1998 - 2003 (O Independente, 2004)

 

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