ENTREVISTA A MARIA FILOMENA MÓNICA
Julho 2008 / GQ

Entrevistar Maria Filomena Mónica é um prazer e um terror. Um prazer pela inteligência da autora, que cumpre na perfeição o ditado inglês de não se levar a sério – mas de levar o seu ofício muito a sério. E um terror porque, finda a conversa, temos de cortar e escolher. Com a plena consciência de que as palavras publicadas são apenas uma diminuta parte de todas as palavras ditas. Apesar de tudo, houve tempo para falar do sexo e dos sexos. Da beleza e da vaidade. Da velhice e da morte. E do coxear sexy de um certo Dr. House.
 

JPC - Há uma passagem na sua autobiografia, Bilhete de Identidade, em que, depois de relatar o encontro com um belíssimo argentino em Oxford, questiona: «Podem o espírito e a beleza ser encontrados no mesmo ser?» É uma boa pergunta. A que conclusões chegou?

MFM - Estatisticamente é difícil. É o que me diz a minha experiência.

Mas teve essa experiência.

Tive essa. Numa vida já não é mau.

E uma vez chega?

Não. Eu gostava de ter tido cem vezes. Mas depende muito do conceito de beleza e da forma como fomos educados. Se pensamos na beleza dos Gregos, em que as caras têm de ser simétricas, em que tem de haver algumas regras, eu tendo a aderir a esse tipo de beleza, que é relativamente raro. Por outro lado, eu fui educada numa família que gostava de casas bonitas, pessoas bonitas, filhas bonitas. A beleza era um valor muitíssimo importante. Ser bonito ou feio era o grande divisor de águas. Foi assim que eu fui educada e isso marcou-me.

Isso vê-se. Uma das coisas mais impressionantes no livro é a sua declarada preferência por homens bonitos. E mais: conheceu vários.

Mas alguns não eram particularmente bonitos. Eu cito no livro um israelita, que é hoje provavelmente o meu maior amigo estrangeiro, e ele não é bonito. Numa escala de 0 a 20, teria 14. (risos) Tive um romance muito breve com ele, mas aquilo que me atraía era o seu sentido de humor, para além de ser muito culto. Mas há uma faceta que eu quero frisar: os homens falam muito da beleza das mulheres.

Nos homens, é normal. Nas mulheres é que não. E a Filomena, na juventude, até fazia uma distinção entre as «brasas» e os «esfriamentosos».

(risos) É horrível, não é? Os «esfriamentosos» eram aqueles que, em vez de nos aquecerem, punham-nos frias. Agora, o que eu acho é que as mulheres sentem o mesmo mas não lhes era permitido dizer. Além disso, quem nasceu na década de 40 não falava de sexo. Dizíamos «que sorte, aquela tem um que é uma brasa», mas não íamos muito para além disso. Tudo quanto fosse sexo era tabu. E mesmo o ser «brasa» era secundário se o rapaz fosse de muito boas famílias. Se pertencesse à aristocracia, se tivesse dinheiro (embora o dinheiro neste meio fosse secundário), até podia ser feio.

Uma das coisas de que nos apercebemos ao ler o livro são as marcadas diferenças de classe.

Eram mais vincadas do que hoje e, paradoxalmente, mais difíceis de detectar. No topo de hierarquia social, nos anos 50 e 60, havia uma elite muitíssimo fechada em que a endogamia era enorme. Mas para quem estava de fora, não havia sinais ostentatórios de riqueza. Todas as grandes famílias não se vestiam de maneira diferente; os filhos não tinham carros para ir para a faculdade; não dispunham de mesadas grandes; portante, era difícil detectar essas diferenças. A maneira de distinguir era através de coisas mais subtis, como o vocabulário, e o vocabulário deles era muito restrito. Curiosamente, quem usasse um vocabulário rico era penalizado. Havia rituais e códigos muito difíceis de detectar por quem estava de fora.

Há uma passagem curiosa no livro em que afirma nunca ter sentido qualquer tipo de discriminação por ser da classe média, embora abastada. Ou, pelos menos, nunca julgou sentir essa discriminação.

Eu não notava nada ao nível consciente. Mas hoje, reflectindo e olhando para trás, pergunto: será que eu não notava porque era criança? Apesar de tudo, sendo eu relativamente abastada, é verdade que o meu trisavô não tinha sido embaixador em Sampetersburgo, nem a minha bisavó tinha sido aia da D. Maria II, por isso eu ponho a hipótese de que pudesse estar a ser discriminada sem notar. Mas, sinceramente, nada tenho a dizer. Eles acolheram-me e à minha irmã Isabel como se pertencessemos à tribo. Fomos integradas nos códigos e nos rituais.

Mas se não fosse bonita, isso não se teria passado.

Acho difícil.

Isso é cruel.

Para mim ou para eles?

Não. Para quem não é bonito.

(risos) Ah, claro. Mas não pus essa hipótese, só reflecti nisso muitos anos depois.

Voltando aos homens bonitos: como é possível gostar tanto da beleza masculina e escrever um texto elogioso sobre o “Dr. House”?

Mas ele é lindíssimo.

E coxo, minha senhora.

E depois?

E isso não o macula?

Não. Dá-lhe um atractivo duplo. É um ser perfeito que tem uma cicatriz. Em alguém tão forte, aquilo que é interessante é o calcanhar de Aquiles. Eu acho o Hugh Laurie um homem muito bonito.

Então quais são as qualidades essenciais num homem e numa mulher?

As qualidades que me atraem em ambos são parecidas. E, com a idade, eu valorizo menos a beleza física, por razões óbvias. As pessoas envelhecem, ficam diferentes. E também aprecio menos a inteligência do que apreciava. Eu era uma snob intelectual horrível. Durante anos dividia a Humanidade em atrasados mentais (que eram 99% das pessoas que me rodeavam) e génios, as pessoas que admirava imensamente. E atribuía à inteligência um mérito que não era real. Porque a inteligência é como a beleza física: Deus dá-nos essa graça ao nascer. O resto vem com o trabalho, etc. Por isso, ao lado da inteligência e da beleza, que são coisas dadas, valorizo a generosidade, a solidariedade, a lealdade. E depois há outra qualidade que sempre teve importância, mas agora ainda mais: o sentido de humor. Não sou capaz de me dar bem com alguém que não tem sentido de humor. Gosto de me divertir, de me rir, e gosto de pessoas que não se tomem demasiado a sério.

O sentido de humor é a forma mais requintada de inteligência.

Se calhar. E de civilização.

Como é que encara este fenómeno nas novas gerações de homens que até se delipam? Às vezes penso que vamos voltar ao século XVIII e usar perucas e meias de seca.

É horrível. Eu gosto de traços físicos marcadamente masculinos. Gosto mais de homens peludos do que não peludos. Se um namorado ou marido meu se depilasse, eu acharia tão ridículo que me separava. Mas isso vem com as modas. Os homens acima da minha geração, por exemplo, achavam muito sexy as mulheres terem pêlos debaixo dos braços.

Eu não me importo.

São modas. Mas eu, como sou loira, nem preciso de me depilar. (risos)

Mas porquê esta tendência para o metrossexual?

O que é isso?

Um metrossexual? Digamos: é um homossexual que não pratica actos homossexuais.

Nem sei o que isso significa. Nunca me cruzei com um.

Mas cruzou-se com um transsexual. É a história mais incrível do livro: uma professora de Geografia que virou homem.

É uma história esquisita, de tal forma que julgavam que eu tinha inventado. Mas eu não inventei nada. O que é mais estranho é que eu nem sabia que existiam transsexuais. No final do período de aulas, suponho que uma freira me disse: a senhora fulaninha de tal já não lhe vai dar mais aulas porque agora é homem. Depois encontrei-a...

... e fugiu, não foi?

Fiquei horrorizada, lembro-me que tinha uns braços pequeninos.

E no livro diz que não sabia o que era um homossexual ou um transsexual.

Pode parecer que nos estamos a armar, mas o que nós não sabíamos na nossa geração era imenso. Há uns dias estava a falar com uma cunhada da minha idade e lembro-me que ela julgava que a criança nascia pelo umbigo. Fui eu quem lhe disse: «olha que não é pelo umbigo». O filho nasceu em 1966 e ela, em 1966, julgava que o filho iria nascer pelo umbigo: tirava-se a tampa e o filho saía. E isto não era tão raro quanto isso. É estranho, mas ninguém nos explicava as coisas. Nem as criadas, porque eram muito vigiadas. E entre nós não se falava. Éramos totalmente analfabetas e por isso não tínhamos muito para contar.

As mulheres de hoje são mais felizes do que eram no seu tempo?

Têm mais possibilidades de ser felizes. O treino sociológico impede-me de generalizar. Mas as pessoas da minha generação de uma certa classe social, e estou a falar do topo, ou seja, as que deviam ser privilegiadas, tinham o destino traçado a ferros: ser boa dona de casa, ter 10 ou 12 filhos, e não podiam sair desse caminho. Isso mudou. Hoje há mais liberdade.

Não duvido. Mas a pergunta é se são mais felizes. Não acha estranho que as mulheres sejam hoje as grandes consumidoras de antidepressivos nas sociedades industrializadas?
 
Acho que é hormonal. Eu sou materialista. Por exemplo, a crise da menopausa. Uma vez, num jantar, eu disse que a menopausa era uma coisa de criadas.

Boa frase.

Porque eu achava que era ridículo as pessoas lamentarem-se de doenças, e especialmente de doenças de natureza feminina. Acontece que a menopausa não é uma coisa de criadas. Eu estive muito deprimida há cerca de 10 anos, embora não saiba se foi por causa da minha mãe, que tinha Alzheimer, se foi por causa da menopausa.

Procurou ajuda?

Recusei-me a ir a um psiquiatra, por machismo, e provavelmente deveria ter ido, embora não sei se me teria feito bem ou mal. Pessoas que conheço e que foram não vieram famosas.

E a um psicanalista? Nunca experimentou?

Nunca. Isso é do domínio da bruxaria. Não preciso. Eu escrevo diários quando estou muito deprimida. Ou então falo com um ou dois amigos, eles que me aturem, e é de graça. (risos) Mas voltando à felicidade, é difícil saber se alguém é feliz ou não. Depende das expectativas. Se nós sonhamos ser uma cantora lírica tão boa como a Callas, então vamos ser infelizes. Se sonhamos ter coisas que estão perto do nosso destino social, é relativamente fácil ser feliz. É por isso que as filosofias orientais, ao convencerem as pessoas a não esperarem demais, dão uma enorme serenidade. Eu conheço pessoas muito perto de mim, que tiveram tragédias, e eu espanto-me porque elas são relativamente felizes. E são-no por falta de ambição. A falta de ambição está na base da felicidade.

Eu observo algumas das minhas amigas, na casa dos 30 ou 40. E se é verdade que elas ganharam liberdade, também houve um acréscimo de insegurança.

Claro. Porque com a liberdade vem a insegurança.

E é curioso verificar a progressão das expectativas: aos 20 anos, sonham com o Príncipe Encantado. Aos 25, com um homem bonito e empregado. Aos 30, com um homem decente. Aos 35, apenas com um homem.

(risos) Não conheço bem essa geração. Enfim, é a geração dos meus alunos, mas eu não tenho essas conversas com eles. Mas ao serem mais livres, as mulheres correm mais riscos e podem ser mais infelizes. Dito isto, não desejo a ninguém o clima repressivo em que fui educada e que me criou enorme infelicidade. Dava-me segurança, sim, eu não podia ser mais segura, tinha protecções por todo lado, uma mãe omnipotente, pessoas que me vigiavam, etc., etc. E, no entanto, era muitíssimo infeliz, ao ponto de pensar em suicidar-me. E se eu não tivesse ido para Londres em 1962, acho que teria acabado por me suicidar. Eu não queria aquela vida. E as pessoas são infelizes porque sabem que há outra vida. Os pobres em Portugal, em 1930, ao não terem televisão, não sofriam a pobreza como agora a sofrem, porque sabem que há outra vida. Aos 18 ou 19 anos, era tudo pela negativa: eu sabia que aquilo que me era dado como vida não era o que eu queria. E provavelmente sabia-o por via da literatura, da Anna Karenina, do Monte dos Vendavais.

Mas não acha que um excesso de opções pode ser angustiante e paralisante?

Acho que sim. E isso traduz-se a um nível muito básico: quando vou ao “El Corte Inglés”. Sou incapaz de comprar porque há muita coisa. Quando todas as opções estão em aberto, isso pode gerar angústia.

Às vezes penso que eu próprio não me importaria de um casamento combinado, à maneira islâmica. Poupa imenso trabalho.

(risos) E se calhar até funcionava! Eu conheci uma mulher, a Condessa de Rio Maior, em 1830/40. Ela estava para casar com o filho do Duque de Palmela, que morreu. Então casou com o conde de Rio Maior, que era completamente burro, e vê-se pelas cartas que ela achava bastante normal ter lá aquele conde de Rio Maior que era bastante burro. De resto, o actual marquês de Rio Maior, quando eu me queixei de quão burro era aquele conde, disse-me que as mulheres da família sempre foram melhores do que os homens, e riu-se imenso (risos).

No livro, fala das suas relações sadomasoquistas.

Acho que é a tradição judaico-cristã. Não há nada a fazer.

Mas existem duas formas de alimentar o sadomasoquismo numa relação sentimental: por insegurança pessoal ou por puro prazer pessoal.

Sim, eu era insegura, como qualquer adolescente. E pensava que os homens que não gostavam de mim, ou me maltratavam, deviam ser muito mais extraordinários do que os outros, que me adoravam. Como se fossem uma raridade. Há aqui um elemento de interrogação, de conquista, como se fosse à caça.

E de vaidade.

Exactamente. (risos) Por que é que este não olha para mim? Um colega podia ser estúpido, mas bastava o facto de não notar a minha presença para achar logo que era um tipo especial.

Curioso. Ainda hoje é assim. As mulheres sempre se sentiram entediadas pelos deslumbrados.

Sem dúvida. O sadomasoquismo mete também vaidade, usou a palavra certa.

Há uma parte no livro em que fala da primeira vez que viu um homem nu. E então lembrei-me de uma história hilariante sobre a noite de núpcias do John Ruskin.

Mas ele não consumou.

Não.

Eu consumei (risos). E antes da noite de núpcias.

No caso do Ruskin, ele estava tão influenciado pela estatuária clássica que quando viu que uma mulher não era exactamente um modelo de perfeição, ficou horrorizado. No meu caso, sempre achei o corpo masculino bastante repugnante.

Vou dizer-lhe uma coisa: até há uns dez anos nunca tinha visto uma mulher nua. Eu e a minha irmã Isabel dormíamos no mesmo quarto e eu nunca a vi integralmente nua. Há dez anos paralisei das costas e fui fazer fisioterapia às Amoreiras e como era a hora das modelos no ginásio, olhei para elas, lindíssimas, e não me provocou nenhuma rejeição. E só então pensei: tenho cinquenta e tal anos e nunca tinha visto uma mulher nua.

E não sentiu nenhuma repulsa, certo?

Nada. Inveja. Achei lindos aqueles corpos. Depois disseram-me que era a hora das modelos e que eu escusava de me estar a comparar aos cinquenta e tal anos com elas, não era boa ideia. (risos)

E comparou-se?

Perguntei: por que é que eu não tenho aquele corpo? Mas eu gosto sobretudo do corpo masculino. Por causa das ancas, das pernas. O meu primeiro homem era magro, tinha o corpo seco, e eu gosto dessa secura no corpo masculino. O corpo feminino é mais redondo. Mas sou capaz de reconhecer que há corpos femininos muito bonitos.

Mudando de assunto: no livro diz que foi pelo confronto com a pobreza no Portugal de 1940/50 que se descobriu uma mulher de esquerda. Mas eu não acho que a Filomena seja de esquerda.

Noutro país e noutra situação, eu provavelmente não seria de esquerda. Eu sou de esquerda em Portugal por oposição à direita portuguesa. A direita portuguesa marcou-me profundamente pelo seu autoritaritarismo. Não preza a liberdade, embora a esquerda também não preze. Eu fui educada dentro da direita e não quis mais a religião, o autoritarismo, o domínio sobre as mulheres. Se a direita portuguesa fosse diferente, se tivesse uma tradição de prezar as liberdades, se fosse excêntrica, se fosse culta, eu provavelmente não seria de esquerda.

Mas a Filomena é uma pessoa céptica, anti-utópica, individualista – há uma série de princípios que a afastam da esquerda.

Mas a esquerda não recusa isso. Pense no Stuart Mill, pense no Orwell.

Mas o Stuart Mill não é propriamente de esquerda.

Para Portugal é de esquerda. Defendeu a emancipação das mulheres, o voto às classes médias. Um Stuart Mill moderno em Inglaterra era de esquerda. Eu sou fundamentalmente individualista e liberal. Não quero que mandem em mim, ponto final, parágrafo. Prezo a minha liberdade e a liberdade dos outros. Em Portugal isso não é possível à direita. Dir-me-á: à esquerda também não. Então, paciência, sou o que sou, não vou por um rótulo. A direita portuguesa é muito provinciana. Nunca foram para além de Elvas. E eu custa-me falar com aquelas pessoas. Às vezes estou a conversar e não percebem o que estou a dizer. Se eu disser «gostei imenso do livro do Turgenev», disparam «mas quem é esse? um russo? e onde é a Rússia?» Cansa-me estar estar sempre a explicar tudo.

Sente-se arrependida de ter publicado o Bilhete de Identidade?

Nada. Zero. Causou-me sofrimento, sim, mas eu já sabia. Estabeleci uma prioridade absoluta: os meus filhos. Se eles ficassem tristes, eu teria sofrido muitíssimo, mas teria publicado na mesma. Por isso eu não lhes dei a ler. Aliás, eu não quis pedir autorização a ninguém. Espantou-me a reacção dos meus irmãos porque achei que eles iriam gostar. Não disse nada de extraordinariamente mal da minha família, eu tentei retratá-la como eu a via. Eu sei que eles a vêem de maneira diferente, por isso se eles escrevessem um livro, seria também um livro completamente diferente e eu aceitaria. Acho que houve uma dose de snobeira, ou seja, ter dito que não pertencia à classe mais aristocrática portuguesa, isso chocou alguns dos meus irmãos. A maior parte da minha família, excepto a minha irmã mais nova, é de direita. Nenhum deles foi ao lançamento, ficaram zangados, disseram que nunca mais me falavam.

E cumpriram?

A mais snob, que é a Isabel, a que vive em Madrid, não cumpriu. Falou-me. Ela gostava muito da minha mãe e não percebe que eu visse a minha mãe assim. Para ela a minha mãe era um Deus, era só bondade, carinho e meiguice. E eu é que era horrível, rebelde, má, eu é que só fazia coisas horrorosas. Mas ela vergou. Os outros não vergaram. Também fiquei triste com outras reacções, mas não me apetece falar sobre ele.

Ele quem?

Eu tinha estado a almoçar com o Vasco [Pulido Valente]. Ele sabia que eu estava a escrever as memórias há cinco ou seis anos, achava a ideia muito divertida e disse-me que também iria escrever as suas, e tenho pena que as não escreva. Mas mesmo sabendo hoje a reacção dele, eu teria publicado. Também me espantou a diferença de reacções entre as mulheres e os homens. Nunca esperei que mulheres de todas as classes sociais se identificassem com o livro desta maneira. Não acho que seja um livro especialmente feminista, mas para muitas mulheres foi uma espécie de grito de liberdade. Diziam-me: «eu também vivi uma vida igual à sua.» Nunca pensei em mim como pertencente à condição feminina, sempre disse que tanto faz ser mulher ou homem. Porque tenho imenso medo de ter pena de mim. Se, em determinados momentos, tivesse tido pena de mim – por exemplo, quando estava em Oxford, e aquilo é muito duro, pensando que eu tinha dois filhos e estava longe deles – portanto, se eu tivesse um milímetro de pena e começasse a chorar, eu sabia que falhava. Portanto, eu disse: não interessa, vou pensar que sou um homem e lutar como um. Não podia olhar para trás. E como nunca quis ser tratada como mulher, para o bem ou para o mal, fiquei espantada com a reacção de uma mulher de origem muito humilde, que tinha vindo de outra banda a uma sessão de autógrafos no El Corte Inglés, e disse-me: «Sabe, eu sinto tudo o que a senhora diz aqui e eu vivi coisas muito parecidas». Ou seja, há qualquer coisa na subordinação do sexo fraco que faz com que as mulheres tenham compreeendido o livro. Os homens, sobretudo os da universidade, tiveram uma reacção tão infantil que custa-me a acreditar que sucedeu.

Quer explicar melhor essa reacção dos machos?

Eu tenho uma situação um pouco exótica no Instituto de Ciências Sociais, porque eu sou o que se chama a decana. Na categoria mais elevada, eu sou a mais antiga. Não é que eu seja a mais velha, mas fui a primeira a chegar ao topo. Nunca imaginei que isso criasse muitos ressentimentos. Como nunca me penso como mulher e como os concursos académicos em Portugal são uma lotaria, pensei: fiquei em primeiro lugar, calhou. Se fosse em Oxford, o facto de ter ficado em primeiro lugar teria outra importância. Como foi em Portugal, não liguei muito. Mas a verdade é que aquilo marcou os homens na universidade. E quando saiu o livro, os cochichos nos corredores eram mais que muitos. São pessoas com quem eu me cruzo todos os dias, conhecem-me, e conhecem mais ou menos a minha vida. Muitos deles sentiram-se atingidos por eu falar livremente dos homens de uma maneira que eles falariam das mulheres. Se o livro fosse escrito por um homem, era legítimo. Mas como foi escrito por uma mulher, é ilegítimo, porque é uma mulher a julgá-los. E eu não tinha pensado nisso. Quando decidi publicar o livro, pensei: vou ter reacções, vou ter chatices, mas não sei bem de que círculos. Mas não pensei que os homens reagissem assim.

O livro termina em 1976, o ano em que eu nasci. (risos)

(risos) Está a ver a diferença?

Vai haver continuação?

Não, eu praticamente estou decidida a não continuar. Todas as segundas autobiografias, mesmo aquelas de que eu gostei muito, como a da Mary McCarthy, são sempre piores do que as primeiras e por uma razão fundamental: o que é interessante nas autobiografias é vermos uma pessoa a formar-se, a sair da concha e a tentar ganhar uma forma. Depois as vidas adquirem um certo ritmo e uma certa rotina e há já um caminho escolhido. A partir dos 33 anos era óbvio que eu ia ser académica, cá ou lá fora. Era improvável que eu tivesse um desvario e me transformasse em trapezista. Quanto aos amores, havia coisas engraçadas a contar que só me arranjariam mais chatices. Profissionalmente, a linha foi muito direitinha, portanto sem interesse. Acho que a adolescência e o início da entrada na vida adulta é a parte mais interessante e mais trágica num ser humano. Depois as pessoas deixam de ter dramas e começam cada vez mais a citar as pessoas com quem se dão. Por isso aparece o name dropping. No meu caso, eu dou-me com pessoas conhecidas, e portanto escreveria que fui jantar com este, ou com aquele, e diriam que eu me estaria a armar. Além disso, está a apetecer-me voltar à História e à investigação, mas não pelo trauma do livro. Eu não penso que vá viver até muito velha. Penso que tenho de vida útil mais seis ou sete anos. Tenho muito medo de enlouquecer e especialmente do Alzheimer. De cada vez que perco a memória, começo a pensar na doença da minha mãe, que me traumatizou muito porque era alguém que eu tinha sempre visto como muito forte.

E tem medo da morte?

Não. Tenho medo de enlouquecer, não de desaparecer. Além disso, tenho uma parte terrivelmente prosaica: não há Deus, não há vida depois da morte...

E não a angustia o fim?

Não. Desde que não tenha dor física ou psíquica...

Ou seja, aquela ideia do «Aubade», do Larkin, de não estar em lado nenhum, não pensar nada, não sentir nada...

Nada me assusta ou angustia em relação a isso. Para minha surpresa, a única coisa muito boa que me aconteceu nos últimos quinze anos é que nunca pensei ser avó. E de repente tive uma neta. E quando ela nasceu, fiquei muito ligada à minha neta mais velha, que agora tem 13 anos, e isso talvez dê uma certa continuidade.

E o envelhecimento? Preocupa-a?

Não. Não sou pessoa que vá fazer plásticas.

Nunca teve a tentação?

Não, de todo. Eu sou muito medricas fisicamente, só a ideia que dói... É um caso encerrado! (risos) Mas o envelhecimento é mau, doloroso, negativo. Nunca se está completamente bem. Ou se parte um dente, ou se tem uma dorzinha, ou se paralisa das costas quando se está ao computador.

O Bioy Casares dizia que o pior da velhice era a invisibilidade: ele, outrara belo na juventude, caminhava pelas ruas de Buenos Aires e notava que as mulheres já não olhavam como antigamente.

Sabe, só muito recentemente é que eu não deixo que me digam: «tu eras tão bonita...»

Mas ainda é.

Exacto, não é «eras», é «é». Eu para 65 anos sou bonita. É verdade que um corpo de 20 anos é muito mais esplendoroso do que um corpo de 65 anos e isso remete também para a vida sexual, um tema que não vale a pena aprofundar muito mais, porque para temas escaldantes eu já dei o meu contributo (risos). Mas sinto, não tanto que eu tenha começado a ser invisível, mas que tenha deixado de ser um objecto sexual. Ainda ontem perguntaram-me se eu não queria ir à televisão falar sobre o Sexo e a Cidade, e eu respondi: mas vocês estão a brincar comigo? Primeiro, nunca vi muito a série; depois, sou uma avó de 65 anos. É isso que eu sou. Um objecto sexual, aquilo que os homens cobiçam, são jovens de 25 anos, não mulheres de 65. E disso estou consciente. Entristece-me um bocadinho, claro, perdi valor no mercado sexual. Mas chateia-me mais não conseguir estar 7 horas na Biblioteca Nacional porque me canso. O pior da idade, para mim, são as pequenas maleitas físicas e ter menos energia.

Isso é pior.

Sim, para mim isso é pior. Sabe, eu sempre disse que Deus deu a cada mulher e a cada homem uma quota de prazer físico e eu acho que tive uma vida satisfatória do ponto de vista afectivo-sexual. E sei que agora perdi a cotação, mas isso também não me aflige, faz parte da natureza humana.

Falemos então do Cesário Verde.

Esse, coitado, não teve tempo.

Pois não. Mas o seu livro sobre o poeta teve duras críticas.

É curioso porque quando eu comecei a escrever o livro queria dar ao leitor a sensação muito primária do prazer que me tinha dado ler e descobrir o Cesário Verde. Não tinha outras ambições e por isso, neste sentido, é um livro modesto. E como disse aquilo que pensava... Aliás, eu disse uma frase muito criticada por amigos íntimos: «eu não percebo de poesia e até agora não gostei de poesia, especialmente portuguesa». E eles diziam: não digas isso, vais levar na cabeça. Mas era o que eu sentia, eu nunca leio poesia portuguesa, tentei ler o Vitorino Nemésio, de quem gosto de alguns contos, e não me diz nada. O Pessoa, percebo que seja um génio, mas diz-me pouco. Mas gosto do Cesário e disse: isto não é um livro para especialistas, é um livro para que as pessoas que ainda não leram Cesário o leiam, é um convite para lerem o Cesário sem nenhumas pretensões. O livro, apesar de tudo, vendeu seis mil exemplares e achei óptimo. Eu tinha dito à Zita [Seabra] que ela não iria vender mais do que dois mil, porque o Cesário não é conhecido como o Eça. Mas olhe que os queirosianos também me fizeram uma guerra.

Eu sei.

Mas era uma guerra era mais subtil. Era não falarem comigo no pequeno-almoço do hotel na América quando houve um congresso sobre o Eça de Queirós em que éramos trinta...

Outra crítica que lhe fizeram foi o subtítulo do «génio esquecido». Disseram que o adjectivo não fazia sentido no caso do Cesário.

Porque eles estão a pensar neles. Quando dizem que toda a gente leu o Cesário, «toda a gente» é os professores da Faculdade de Letras. É como uma amiga minha que esteve na Muralha da China e eu perguntei: «gostaste?» E ela: «Não estava lá ninguém». Ninguém? E ela: «não estava lá ninguém conhecido.» Ou seja, a maior parte da população não leu o Cesário Verde. Eu falei com pessoas cultas, desde presidentes de grandes empresas até embaixadores, que nunca tinham lido o Cesário. Por isso não me venham dizer que toda a gente leu, é mentira.

Por falar em leituras: o que anda a ler agora?

Estou a fazer uma recensão crítica do Orwell (Por que escrevo e outros ensaios), que foi traduzido para português.

E blogues? Lê?

Não, não toco. Isso está relacionado com o envelhecimento. Tenho a noção de que vou desaparecer. Haverá um dia em que deixo de fazer parte dos vivos e de habitar a Terra. É isso que é envelhecer: é o «medonho muro» de que falava o Cesário. Há um medonho muro à minha frente e disso só nos apercebemos aos 50 ou 60, quando os pais morrem. Um muro que é a morte. E há pessoas para as quais eu já não tenho tempo e não vou perder tempo com elas. Eu agora estou a ouvir o Verdi todo em DVD, por ordem cronológica. Mas, por exemplo, tentei gostar de Wagner e sei que já não vai haver tempo para eu fazer algumas coisas. Por isso também me apetece mais reler livros do que descobrir autores novos.

E está a trabalhar em quê?

Bom, eu estou proibida de dizer pela minha editora, mas é sobre o século XIX nos Açores, na ilha de S. Miguel. Portanto, estou a ler muitas coisas sobre os Açores. Havia aquela ideia de que quando se estava doente ia-se para as ilhas e portanto há muitos estrangeiros, americanos, ingleses, que passaram por lá e estou a ler muita literatura de viagens sobre os Açores.

Nos seus textos, há um certo tom de amargura com Portugal. Nunca pensou zarpar daqui?
 
Eu não fui embora porque tinha filhos cá. Em 1976 eu tinha combinado voltar para a Inglaterra e tinha estabelecido com o meu marido que as crianças ficavam 6 meses comigo e 6 meses com ele. Esse, que era o meu plano, gorou-se. O Vasco tinha lugar na Universidade de Cambridge e eu ainda não tinha acabado o doutoramento. Quando eu acabei o doutoramento, em 1977, também não ia para qualquer país. Iria se fosse para Inglaterra ou para os Estados Unidos, o que não era fácil, e por uma razão: ninguém quer saber de Portugal. A história portuguesa não vende, não é assunto comercial na academia internacional. As cátedras portuguesas são poucas, estão normalmente ocupadas por gente medíocre na escala do prestígio académico. E eu também já tinha 34 anos, não tinha 18 ou 19. Tinha um bom lugar aqui na universidade, gostava muito de trabalhar com o Sedas Nunes e não havia ofertas.

Digo isto porque há sempre a tentação do regresso nos intelectuais portugueses.

Mas eu não tinha a tentação do regresso. Se me tivessem oferecido um lugar em Cambridge, Harvard ou Yale, nem olhava para trás. Por exemplo, a comida: eu não sou uma gourmet e acho que a comida em Inglaterra é óptima. Há de tudo: indiana, chinesa. Portanto, a comida não me faz impressão nenhuma. Gosto muito da luz de Lisboa, mas vinha cá de férias. Sinceramente, não penso que tivesse nostalgia de viver em Portugal se tivesse uma boa universidade, com bibliotecas, estudantes estimulantes. Aqui, eu não tenho estímulo. É muito fácil ser bom aqui e é muito difícil ser bom lá fora. E eu achava que ia amolecer. Lembro-me das conversas que tinha com o Sedas Nunes: se eu fico em Portugal vai ser horrível, vou ficar uma medíocre. Se calhar fiquei uma medícore. Se calhar teria sido muito melhor se tivesse tido como rivais pessoas que todos os dias estão a tentar ser muito boas.

Apesar de tudo, salvava algumas coisas portuguesas do dilúvio?
 
As «Águas das Pedras». A luz de Lisboa. A familiaridade com os sítios. A pátria é isso: uma pessoa sentir-se em casa. Nasci aqui, vivi aqui até aos 18 anos. Uma pessoa sente-se parte desta família e isso é cómodo. Descansa-nos. É bom. Mas se isso supera as vantagens de viver lá fora, não sei.


 

 

Por : João Pereira Coutinho