CONFESSO que falhei. Vergonhosamente falhei. A ideia era entrevistar Miguel Esteves Cardoso? Esqueçam. Não há nada para ver. Não há entrevista nenhuma. Acabou-se. Desmontem a tenda. O livro chama-se Explicações de Português, foi publicado pela Assírio & Alvim, a casa primeira do Miguel. Eu li o livro. Eu tinha várias perguntas sobre ele. Perguntas inteligentes. Persistentes. Cuidadas. Pensadas. Muito bem formuladas. Juro. Em papel de máquina, rabiscado com o cuidado de um liceal. Pois sim. Pois não. Quando dei por elas - e por ele, e por mim, e por nós, e por vós - já tinha quatro horas de palavras na fita. O dia morria num fim de tarde insuportavelmente quente. Hora de terminar. Nenhuma pergunta genuinamente séria. Ou genuinamente relevante. Só paleio. O bom, velho e egoísta paleio. Porque existem diferenças. Uma entrevista tem um pretexto. Uma conversa tem vários pretextos. Uma entrevista tem regras. Uma conversa tem as suas próprias regras. Ia escrever «guerras», e escrevo mesmo: uma conversa é uma guerra benigna que se vai docemente instalando num campo de batalha sem ordem ou disciplina. Vamos atacando. Somos atacados. Vamos defendendo. Somos defendidos. E no meio do caos, há coisas que marcham, há coisas que ficam perdidas no rasto. Com oito livros publicados, 46 anos e - no mínimo - trinta quilos a mais, o Miguel está mais velho, mais gordo e mais doce. Mais casado. Mais feliz. Próximo do sábio, mas sem barbas. E com dois gatos, dois lindos gatos, dois filhos da puta de gatos que me destruíram um casaco novinho em folha. As linhas que se seguem são a parte de uma parte de uma parte. Podem ser lidas de trás para a frente. De lado. De pino. Podem ser lidas devagar. Depressa. Aos bochechos. Mas sem ordem. Porque as verdadeiras conversas não obedecem a nada, excepto à vontade - de quem as faz e de quem as ouve. Demos graças a Deus pela maravilhosa utilidade das coisas verdadeiramente inúteis. Como a conversa. Ela é a artéria principal por onde corre a amizade.
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JPC: Aqui em Lisboa está um calor insuportável. No Porto estava mais fresco.
MEC: Vieste agora do Porto?
Ontem.
Gosto muito daquela cidade. Eu preferia viver no Porto. Quando o meu pai morreu, já tinha um apartamento lá na Foz, fabuloso. Eu gosto muito mais do Porto do que de Lisboa. Gosto mais das pessoas do Porto, são mais honestas, do ambiente, do clima. É mais bonito.
Mais honestas? Em que sentido?
Dizem o que pensam. Não são mentirosas. Não fingem.
Uma das coisas que eu gosto no Porto é a forma como se utiliza o palavrão para expressar afectividade. É «ó meu caralho», «ó seu caralho»...
(risos) É muito bonito. Adoro isso. É afectuoso. Estive lá agora, dez dias.
Ai sim? Andaste por onde?
Por lado nenhum em especial.
Eu acho o Porto uma cidade muito dura.
Não acho. Em que aspecto?
É uma cidade difícil de ser conquistada.
Não acho nada. Por exemplo, a Casa Nanda, onde nunca tinha ido: quando lá fomos a primeira vez, fomos um pouco mal tratados. Na segunda vez, a coisa melhorou. À quarta vez, já éramos filhos. Conheço pessoas que andaram aqui em Lisboa, como o Manuel Serrão, e não conseguiram fazer amizades.
Comigo é ao contrário: arranjo amigos em Lisboa com muita facilidade. No Porto, não.
Porque não tens pronúncia. As pessoas de Lisboa não gostam muito das pessoas do Porto.
E o clima? Davas-te com o clima do Porto?
Acho Lisboa muito quente...
...também acho...
...gosto muito mais do clima do Porto. Gosto muito daquilo. É mais Portugal. E come-se melhor.
Onde é que costumas ir?
Ao Veleiros, à Casa Nanda.
A Casa Nanda é muito boa.
Gosto muito daquilo. Todos os dias a carta muda. E gosto muito da figura da própria Nanda, muito digna, com aqueles brincos, toda de preto, com um sorriso de ouro.
E já foste à Avó Miquinhas?
Ainda não. Tu, aliás, deste-me uma lista: Os Rapazes, o Chanquinhas. Mas o Veleiros...
É o polvo, rapaz...
É o melhor polvo do mundo. Aquilo nem é polvo, é manteiga.
E aqui em Lisboa? Diz-me dois ou três restaurantes que valham a pena.
Tenho aqui uma lista dos restaurantes onde vamos. Espera lá. Estão aqui. Por exemplo, o Beira Mar, em Cascais, para filetes e arroz de berbigão. É garantido: comida clássica, burguesa, anos 50. Depois, o Porto de Santa Maria, fabuloso para peixe. Existe também o English Bar, mas aí não se come muito bem. Aqui da zona, já foste ao Búzio?
Ainda não.
É muito bom. E ali em Belém tens o Mercado de Peixe. Depois, o Pap'Açorda...
...muito bom, já conheço...
... o Ramiro para marisco...
...também já conheço...
... o Pinóquio. Também para peixe, o Pedro dos Leitões. Como é que se chama a zona... [para a esposa] Ó Maria João, como é que se chama o sítio do Pedro dos Leitões?
[voz de Maria João, do fundo da casa]: Calhariz.
É isso, Calhariz. Para os lados de Benfica. Mas tu deves ir sempre ao mesmo sítio, para criar laços entre as pessoas da casa. Uma questão de fidelidade.
Eu sou muito assim, sou. Gosto da rotina. Como os gatos. Vou sempre ao mesmo restaurante, à mesma livraria, ao mesmo barbeiro. Sabes que eu tenho um barbeiro chamado Eugénio de Andrade, que escreve poemas?
A sério?
Palavra. Todos os dias lá está um poema novo, colado na vitrina.
Por falar em Eugénio de Andrade, já viste este poema novo do gajo? Sobre a Jugoslávia? Andam a bombardear a Jugoslávia e mais-não-sei-o-quê...
Não.
Que coisa miserável, pá.
Mas o meu barbeiro é tão clássico que até faz lembrar aquele que vinha na Spectator. Leste? Um tipo sentava-se na cadeira e ele perguntava: o cavalheiro deseja futebol, mulheres ou silêncio?
(risos) Fabuloso. Depois ainda tens o Tony de Sesimbra. Para peixe.
Peixe, peixe, é em Setúbal.
Setúbal é imbatível. Dizem que é a melhor lota do país. Imbatível. Mas vai ao Pedro dos Leitões, ali em Benfica.
Por falar nisso, ainda és do Benfica?
Eu não gosto de futebol. Mas sou do Benfica porque o meu pai era do Benfica. É muito importante ter áreas da vida onde não há escolha. Sou do Benfica porque o meu pai era do Benfica e o meu avô era do Benfica. Eu bebo uísque como o meu pai bebia. Aos dezoito anos é que há aquela tendência de ser original, de contrariar, do género: eu agora vou só beber bourbon, para ser diferente. Disparate. Vê lá: depois do meu pai morrer, pedi um dossier médico e cheguei à conclusão que os meus problemas de saúde são os problemas de saúde que o meu pai tinha com a minha idade. Os mesmos problemas. A genética é muito importante.
É extraordinário. À medida que vamos envelhecendo, estamos cada vez mais parecidos com os nossos pais. Uma coisa que eu reparo: os meus gostos começam a ser os gostos do meu pai. Eu, que não gostava nada de História Medieval, agora não leio outra coisa.
E eu? Detestava História. E agora só leio História. Mas isto é lindo. Há muita coisa que já está decidida por nós. Porque é que tu gostas de livros? O teu pai não gosta de livros?
Adora.
Pronto.
Mas eu nem sequer racionalizo isso.
Tu, não. Mas há sempre aqueles que dizem que lêem porque querem ser pessoas informadas, e mais isto, e mais aquilo. Tretas. Tudo tretas.
Porque é que lês?
Para além de gostar, porque é a forma mais económica de conhecimento. É uma forma de roubo. Um gajo está dois anos a escrever um livro e tu lês aquilo numa noite, percebes? É roubar. É como roubar num supermercado.
Tens razão. Há dias comprei os três volumes da Cidade de Deus...
... aqueles da Gulbenkian?
... sim, a três contos cada, e senti-me a roubar.
E estavas a roubar. Estavas a roubar! Aquilo demorou décadas a escrever. Claro que estás a roubar. Além disso, nunca te esqueças que o melhor da pessoa está nos livros que escreve. Por exemplo, os diários do Alan Clarke...
... esse gajo é um patife...
... pois é, mas é o melhor dele. As pessoas dão o melhor que têm aos livros. O melhor da pessoa é sempre o público, nunca é o íntimo. O lado público é como a melhor rendinha que se põe na montra, a melhor toalha que se põe na mesa, é o melhor que se tem. Por exemplo, o Saramago: aquilo é o melhor que ele tem.
Achas que os livros são melhores do que ele?
Têm de ser. Os livros são sempre melhores do que as pessoas que os escrevem. Claro, depois existem excepções: livros tão maus que a pessoa tem de ser melhor. Por exemplo, o José Jorge Letria tem de ser melhor do que os livros dele. Mas são excepções.
Detesto aqueles tipos que têm uma atitude utilitária em relação a tudo: lêem para saber mais, para fazer currículo...
Isso é uma coisa dos portugueses de agora. A ideia de ler para: para tirar um curso, ir não sei onde, porque é obrigatório ler, etc. Essas pessoas não sabem o que verdadeiramente perdem. É como comprar um livro de viagens para depois ir conhecer o sítio. É ridículo. Os livros servem sobretudo a nossa curiosidade e também um sentimento de controlo que todos temos. Tu, ao leres um livro, és um pequeno deus. Pode ser um gajo de que gostas, tipo Gore Vidal ou Oakeshott. Quando queres, podes parar a leitura para pensar, ou saltas umas folhas, ou mandas o livro para o lixo. Isso não acontece na vida real, essa possibilidade de escolha.
E aqueles tipos que dizem que estão a ler várias coisas ao mesmo tempo nos inquéritos da praxe?
Isso são pessoas que não lêem. É tudo mentira. Pessoas que se lembram de dizer os livros todos que andam a ler são pessoas que não lêem.
O que é que andas a ler?
É impossível dizer. Se quiseres, mostro-te. Agora ando a ler vários livros sobre comida, mas sei lá quais.
Eu sou um bocado obsessivo. Por exemplo, descubro um gajo - sei lá, o Mencken - e só descanso quando leio tudo.
Eu também. Mas depois fico triste. Isso aconteceu-me também com o Mencken. Dele só tenho para aí uns quinze livros e quando acabei, fiquei triste. Falta-me o dicionário dele.
Tens os «Prejudices»...
Sim, tenho as várias séries dos Prejudices... Mas, como eu estava a dizer, fico sempre triste quando acabo. Além disso, na minha idade é muito difícil fazer grandes descobertas.
Quais foram as tuas grandes descobertas recentes?
O Thomas Bernhard, por exemplo. Mas já li tudo, tudo o que há traduzido, porque não sei alemão.
O que é que achas do Philip Roth? Gosto muito dele.
As pessoas da minha geração leram o Roth pelas razões erradas, por causa do sexo.
É a leitura da tusa.
Exactamente.
Tens ido ao cinema?
Não. Gosto de ver vídeos. É como os livros: podes parar para pensar, rever algumas cenas, deitar ao lixo.
Que filmes tens ali?
Tudo merda. Um com o Mel Gibson e dois que eu não sei quais são. O último que vi no cinema foi o Casino.
Muito bom.
Excelente. Não gostei na altura e agora gosto. O livro é fabuloso.
É?
Fabuloso. Eu quando arrumar isto, separo uns livros para ti.
Mas o amor da tua vida continua a ser o Beckett.
Continua.
E o Nabokov? Tu tens ar de quem não gosta do Nabokov.
Eu li o Nabokov todo mas não gosto muito daquele artificialismo, daquele trabalhado.
Mas no «Lolita» aquilo funciona.
Eu li o Lolita aos treze anos. E depois vi o Kubrick.
Gostas do Kubrick?
É um malvado. É um génio frio, não é humano.
Por falar em grande arte: Amália. Tu sabes que eu não gosto de fado e amo Amália?
Ela ultrapassa o fado. É uma grande voz, uma grande escritora. É transcendente. Uma pessoa inteligentíssima, profunda, com um mistério fabuloso.
É uma grande artista.
Quando canta, tu pensas que ela está a cantar sobre ti, não é?
Exacto.
É como os canadianos que choram a ouvir a Amália porque pensam que ela está a falar sobre o Canadá. É universal.
Tu és um conservador.
Sou.
Tens uma «disposição conservadora»: preferes o tentado ao nunca tentado, o familiar ao desconhecido...
Isso é Oakeshott.
É. Do «On Being Conservative».
Grande texto.
Descobriste-te um conservador a ler isso?
Quando li o Oakeshott vi, pela primeira vez expresso, aquilo que eu sentia. E a disposição de que ele fala, é disposição no sentido inglês: é uma queda, uma fraqueza conservadora.
Aquilo que eu acho fenomenal no Oakeshott é o facto de ele ter dado nome às coisas. Como o sentimento de perda, algo a que eu sou muito sensível. Agora estou a viver em Lisboa e não imaginas as saudades que eu tenho do Porto.
Deve ser terrível. Até porque o Porto é diferente: tu sentes que fazes parte daquilo.
Como é que é possível defender essa «queda conservadora» num país como este? Num país onde se exigem reformas, e reformas tão profundas?
É possível. Um conservador não é um reaccionário. Ele não quer que o Porto regresse ao século XIX, por exemplo. Ele está preso ao presente, ao que existe. É possível conciliar o conservadorismo com a necessidade de reforma porque são os outros que tratam da reforma. O nosso papel é tornar a mudança mais lenta, proteger o que existe. Para fazer as reformas não falta gente.
Mas em Portugal confunde-se muito conservadorismo com reaccionarismo.
Um reaccionário é alguém que é contra o presente. São aqueles que querem voltar atrás. Querem impôr a sua vontade. É desagradável. É alguém que quer impôr uma coisa aos outros. É alguém que diz, por exemplo, «esses gajos de Esquerda, era cortar-lhes o cabelo»...
Às vezes tenho uns ataques desses.
Toda a gente tem, somos humanos.
Agora que tu disseste: «esses gajos de Esquerda, era cortar-lhes o cabelo»...
Mas não cortavas.
(risos) Não.
Mas o reaccionário cortava. Se ele subisse ao poder, mandava logo cortar o cabelo aos tipos. Um reaccionário é um revolucionário. É um descontente, um rebelde, quer algo que não existe. Rejeita a vida, o presente. A Esquerda tem essa tendência.
Eu acho que se a Esquerda gozasse um pouco mais a vida, acabava essa intranquilidade. Até já pensei em convidar o Louçã para almoçar. Um almoço longo, bem regado.
E ele ia.
Achas?
Ia, ia. Eu gosto do Louçã. Tenho admiração por ele. Uma vez convidei-o para um copo e ele foi. E acho que o Louçã é uma pessoa feliz. Um bom português.
Não gostas do Alberto João Jardim?
Gosto muito dele. É um gajo de esquerda, um social-democrata.
Gosto muito dele.
E a Madeira funciona. Ele é um homem culto, com sentido de humor.
Tu não vivias no Funchal?
Claro que vivia. Nas calmas. Aquilo funciona. A minha irmã vive lá há anos e não sai. O Alberto João é um grande homem. E eu acho que as pessoas secretamente também gostam dele.
Um grande político. Um dos maiores.
Ou o maior. O Mota Amaral também é muito bom. Se calhar ainda é melhor do que o Alberto João. O Mota Amaral é um conservador. Ele conseguiu manter os Açores exactamente como os Açores eram.
Escreve bem.
Escreve bem, é inteligentíssimo, muito generoso. Gosto muito dele. Um grande líder. Dedicado. Patriótico.
E o Carrilho? O que é que tu achas desta animosidade entre ele e o engenheiro [Guterres]?
Eu gosto do Carrilho. É um filósofo, gosta de ler. Quando ele saíu da universidade para ir para a política, foi para fazer um frete. Uma tropa. Ele tinha uma posição muito confortável: podia ir ao Frágil quando quisesse, comprar livros, lê-los com tempo, e saíu dessa posição para ir fazer uma tropa. O Guterres também é um sacrificado.
A política é para mártires.
Por exemplo, se agora me dissessem que o Guterres ia ficar no governo vinte anos, eu tinha pena dele.
A política é muito dura: sempre a comer carne assada nos jantares...
É horrível. Acordares cedo, teres de ouvir o gajo do sindicato, despachos para não sei onde. É uma vida horrível. Eles merecem o nosso agradecimento.
O Guterres merece o nosso agradecimento?
Então não merece? Já viste a vida dele? Não acredito nada naquela ideia de que as pessoas se agarram ao poder. Viver em S. Bento é porreiro? Andar de Mercedes é porreiro? Por amor de Deus.
E o Cavaco? Merece o nosso agrdecimento?
Claro que merece. Já viste o que ele trabalhou? Estradas, aturar os gajos do partido, pôr uma gravata de manhã...
O que é que tu achas da presidência Clinton?
Agradeço também que ele tenha lá estado. Foi bom para Timor.
E o escândalo com a Monica?
Acho absurdo que as pessoas se preocupem com isso. O que é que temos a ver com isso?
Mas ela não era grande coisa.
As pessoas podem interrogar-se como é que o homem mais poderoso do mundo se meteu com uma miúda de vinte e dois anos, assim para o gorducho e não sei quê. Mas o Clinton devia ter dito simplesmente aos gajos: eu trabalho de manhã à noite na Sala Oval, não tenho tempo para andar a engatar actrizes, modelos, estou ali na porcaria da Casa Branca e tenho sorte, uma vez por mês, de ter um brochezito! Qual é o problema?
Há uma frase neste teu último livro que é muito interessante. Escreves tu: «A única atitude inteligente diante da vida é aceitá-la, o que significa aceitar que não é compreensível, previsível ou homogénea». Tu já chegaste mesmo a esta reconciliação contigo próprio?
Eu acho que é inato. A minha mãe é muito conservadora e esta atitude de aceitação é-nos inculcada. Aceitar é assim: eu não compreendo isto, paciência. Eu não sei consertar o candeeiro, paciência. Tento fazer um prato qualquer, não consigo, vai tudo para o lixo, paciência. Aquela atitude de «não vou desistir, lutarei até ao fim», isso é uma estupidez. Nós somos muito limitados no nosso tempo. Sabemos muito pouco. E isso dá uma grande alegria.
Mas às vezes não é fácil viver com isso.
Mas aceitar também é reconhecer aquilo em que se é bom. É importante que as pessoas sejam honestas e saibam aquilo que são, para o bem e para o mal. É preciso aceitar.
Mas às vezes é difícil.
Não é.
É, é. Por exemplo, eu gostava de ter sido pianista e não fui.
Mas tu tocaste em bares.
Está bem, mas não cheguei ao topo.
Pronto, mas deves colocar a questão ao contrário: e quantas pessoas que escrevem como tu sabem tocar piano? Tu estiveste lá, conheces essa vida, as pessoas, o ambiente, qualquer dia ainda escreves um romance sobre isso. Só Deus é que sabe. Temos de aceitar que somos limitados. Não somos suficientemente inteligentes para saber tudo, perceber tudo. É preciso saber viver com isso. Eu também gostava de ter sido guitarrista mas não tinha talento nenhum. E hoje penso: que falta faz um guitarrista neste país? E neste mundo?
Tens razão. A mim faz-me falta é um bom alfaiate.
A sério? Olha, há um muito bom ali na baixa, o Nunes Correia. São muito chatos, demoram muito tempo, mas são bons, os melhores de todos. Sapatos e tudo. E ficam para sempre. Eles já fazem aquilo com uma certa margem, para o caso de engordares ou emagreceres.
Óptimo. Queria arranjar um fato de linho que fosse à medida.
No Brasil há muitos, ao preço da chuva. Tenho seis ou sete. Como já não me servem, se quiseres, dou-tos e tu mandas apertar.
Branco sujo?
Lindos. Eu mostro-tos e tu ficas com eles. Alguns nem foram usados.
Obrigado, Miguel.
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Entrevista publicada na revista do Independente a 7 de Setembro de 2001