WORK IN PROGRESS

4 de Agosto, Folha On Line

SIM, sou um nostálgico da simplicidade. Tenho 5.000, 6.000 livros. Mas o meu sonho supremo era ter apenas dez ou vinte e fechar a contagem. Ah, como seria bom reunir "os livros da minha vida" numa única estante e deixar que o ruído do mundo, e das letras, passasse lá por fora. A biblioteca perfeita não se faz por adição; faz-se por subtração. Não me canso de o repetir.

Como tudo o resto, aliás: acumulamos centenas, milhares de objetos sem desígnio ou sentido. Quando seria possível viver com metade, ou metade da metade, ou metade da metade da metade. Só nos Estados Unidos, leio agora, existem milhares de "centenários": indivíduos que, cansados do excesso consumista, reduziram as suas vidas a cem objetos fundamentais. A moda espalhou-se por jornalistas do Reino Unido. Da Europa. De Portugal. Que fizeram a experiência e sobreviveram a ela.

E por que não? Sentado no sofá da sala, olho em volta e, saturado pela paisagem, começo a subtrair mentalmente. Ao fim de algumas horas, há mais espaço: físico, mental e até existencial. Não acreditam? Acreditem, leitores. E sigam-me, por favor - aqui.

 

2 de Agosto, Expresso

POR QUE MOTIVO a sátira desapareceu dos radares? Mistério. Verdade que Eça e Machado, seguramente os maiores prosadores modernos da lusa língua, eram também dois consumados satiristas. Mas, apesar de tudo, Eça e Machado não deixaram herdeiros. Basta olhar: tirando duas ou três excepções exóticas, a prosa contemporânea, dos dois lados do Atlântico, oscila entre o coloquialismo vácuo e o sentimentalismo palavroso, dois vícios que teriam deixado Eça e Machado cobertos de vergonha.

Por isso brindo a iniciativa recente de Francisco José Viegas, que resolveu dirigir colecção especial para a Bertrand. E, para início de hostilidades, Viegas resolveu importar Diogo Mainardi directamente do Rio de Janeiro, editando o delicioso, idiossincrático e perfeitamente inclassificável Contra o Brasil. Mas, afinal, quem é Diogo Mainardi?

O grilo falante que habita a minha consciência aconselha-me prudência. Primeiro, porque Mainardi é persona non grata no meio intelectual brasileiro, para além de ser o mais temido e odiado colunista do Brasil. E, segundo, porque não é de bom tom elogiar publicamente os amigos.

Sacudo o grilo com um riso instintivo e declaro Contra o Brasil uma experiência literária única. Não apenas por prolongar a tradição satírica que dramaticamente nos falta. Mas por apresentar a personagem inesquecível de Pimenta Bueno, uma espécie de D. Quixote antinacionalista que vai correndo o país, e até o mundo, a debitar impropérios contra o Brasil.

A regeneração da Pátria, para Pimenta Bueno, não passa pelos velhos clichés (informalidade, alegria, exuberância) que o Brasil gosta de cultivar sobre si próprio. A verdadeira regeneração vem pela farsa: pela forma impiedosa como Pimenta Bueno transforma cada virtude em vício, socorrendo-se para tal de todos os visitantes estrangeiros que passaram pelo Brasil e deixaram páginas impiedosas sobre a degenerescência cultural da tribo.

Moral da história? Nenhuma. O Brasil não tem moral. Para Pimenta (e para Mainardi), o Brasil é simplesmente um torturante estado de espírito - aqui.

 

PUB

Para os interessados, aviso que a segunda edição, revista e aumentada, do Avenida Paulista, já está na loja virtual das Quasi - ou no dealer do costume. Diferenças em relação à primeira edição? Assim de cabeça, sou capaz de jurar que existem 26 crónicas novas e uma foto do autor, em cinta portátil, para fazerem tiro ao alvo. Enjoy.

 

____________________

 

5 de Fevereiro de 2008, Folha On Line

- Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?

Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.

- Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.

Exatamente. Lula - o meu Lula - é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.

 

Uma conversa com Diogo Mainardi, aqui.

 

21 de Janeiro de 2008, Folha On Line

Por que você acha que, no Brasil (em Portugal é a mesma coisa), todos os escritores em início de carreira querem logo ser um Mann ou um Dostoiévski, quando nem sequer dominam a linguagem básica da narrativa? Você acha que a hostilidade à literatura "middlebrow" é um dos fatores?

Acho que é pretensão pura, mesmo. Vontade de ser celebrado em vida e post mortem. Vontade de estar na história. O problema desses escritores não é tentarem ser Mann ou Dostoievski, é pensarem como Napoleão. Essa vaidade besta é que os impede de ter autocrítica e de ir pouco a pouco escrevendo uma obra gradual e verdadeira, que dá trabalho, muito trabalho... Monteiro Lobato tem uma imagem que adoro: diz que o estilo é como um subproduto das buscas do autor, como o cheiro que surge na fruta madura. Diz mais, diz que isso só acontece perto dos 40 anos na prosa. Pode conferir: todo grande prosador atingiu o auge depois dos 30-35. Por sinal, foi com a minha idade, 38 anos (que completarei em 28 de março), que Proust se enfiou naquele quarto de cortiça para escrever a 'Recherche'. Meu azar é não ser Proust. Minha sorte é saber que não sou. 

 

Uma conversa com Daniel Piza, aqui.

 

____________________

 

FOLHA - Quando você começou a escrever crônicas para o público brasileiro, como as imaginou?

JOÃO PEREIRA COUTINHO - Pensei em leitores chorando de gratidão, matrimônios desfeitos por ciúmes bobos, cartas de amor desesperadas. Não aconteceu. Mas eu continuo a tentar, começando do zero todas as semanas. O objetivo é o mesmo: divertir, informar, enfurecer e conquistar o leitor. No fundo, eu só quero ser amado. [risos]

Entrevista para a Folha de S. Paulo sobre o livro Avenida Paulista, aqui. Para comprar o livro, aqui ou aqui. 

 

- Uma conversa radiofónica sobre Portugal e o Brasil, com Francisco José Viegas e Otavio Frias Filho, aqui [wma], aqui [mp3] ou aqui [audio real].

 

- Uma conversa com o jornalista brasileiro Bruno Garschagen, aqui.

 

- Uma conversa televisiva sobre a felicidade, com Paula Moura Pinheiro e Ana Martins, aqui

 

______________________

 

Apresentações biográficas, aqui.

E-mail pessoal (mas transmissível), aqui: jpcoutinho [arroba] jpcoutinho.com

'Trabalhos Passados', na(s) próxima(s) página(s).

 

 

1 2 3