23 de Agosto, Expresso
PAUL NEWMAN, fatalmente doente com cancro do pulmão, pediu aos médicos para morrer em casa. Para morrer em família. Não se esperava outra coisa. "Pudor" e "dignidade" são duas qualidades que imediatamente associamos a Newman, exactamente como sucede quando pensamos em James Stewart. Mas Newman não é, e não poderia ter sido, Stewart: apesar de transportar ainda o porte e a concisão teatral do cinema clássico americano, Newman abriu as suas composições para as subtilezas do "método" Stanislavski, sem nunca permitir os seus excessos psicodramáticos. Desconfio que não foi apenas a beleza física de Newman e os lendários olhos azuis que apaixonaram cinéfilos de ambos os sexos. Foi precisamente esse equilíbrio entre tradição e modernidade.
Curiosamente, Newman lamentava não ter a versatilidade de Marlon Brando ou Montgomery Clift, seus colegas de geração. Mas Newman, opinião minha, é superior a Brando e a Clift precisamente por essa ausência de versatilidade impessoal. Existe a marca do homem, e não apenas do actor, em todos os seus trabalhos.
Os críticos citam os filmes com Richard Brooks (Gata em Telhado de Zinco Quente), Robert Rossen (The Hustler) ou o Óscar com Scorsese (em A Cor do Dinheiro). Nada a opor. Mas existe um papel esquecido, e aparentemente menor, que sempre recordo quando recordo Paul Newman: o advogado Frank Galvin, em O Veredicto de Sidney Lumet. Então encontramos Frank, um causídico envelhecido e derrotado, que num assomo de consciência decide travar uma luta por causa perdida. Verdade que o filme tem a pena superlativa de David Mamet, argumentista que concede às palavras uma força invulgar. Mas as alegações finais em tribunal, último fôlego perante um júri céptico em premiar a justeza da sua causa, é uma lição de eloquência e uma das razões por que o cinema é uma arte. "Eu ainda acredito que existe justiça no coração dos homens", diz ele com uma voz plena de fadiga e ténue esperança. Não conheço melhor epitáfio - aqui.
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Para os interessados, aviso que a segunda edição, revista e aumentada, do Avenida Paulista, já está na loja virtual das Quasi - ou no dealer do costume. Diferenças em relação à primeira edição? Assim de cabeça, sou capaz de jurar que existem 26 crónicas novas e uma foto do autor, em cinta portátil, para fazerem tiro ao alvo. Enjoy.