Amigos, romanos, compatriotas: lamento a longa ausência deste espaço. Motivos pessoais, profissionais, académicos e sentimentais impediram a regular manutenção do sítio. Prometo redimir-me. Para começar, aqui ficam os links para os últimos artigos, publicados aquém e além mar. E ainda uma coisinha boa para adoçar a boca: na GULA, continuo a relembrar, e a republicar, as críticas mistério da revista Sábado. Desta vez, fiquem com o excelente Cafeína, na cidade do Porto. E se passarem por lá, digam que vão da minha parte.
Novembro, GQ
[...]
[João Pereira Coutinho] O que é que mais valorizas numa pessoa?
[Bruna Lombardi] O humor.
A sério?
Sim. Sentido de humor, o maior sinal de inteligência.
Seja homem ou mulher?
Sim.
Estou a perguntar isso porque há tempos li um artigo na Vanity Fair em que o Christopher Hitchens dizia que é mais raro encontrar sentido de humor nas mulheres. O sentido de humor é sobretudo um mecanismo dos homens.
Interessante. Talvez porque historicamente a mulher não ousa, não tem ousado se expor tanto, não se permite tanto a essa exposição do próprio humor. É que para você ter humor você também precisa se conhecer muito bem. O primeiro degrau do humor é a autodepreciação, e para que você possa fazer isso é preciso se conhecer bem. E às vezes as mulheres têm poucas oportunidades de desenvolver esses talentos.
Porquê?
Porque socialmente, historicamente, elas vieram sendo mais esmagadas, desenvolvendo um carácter mais escondido do que os homens, para serem aceites. Até há pouco a mulher não votava, certo? E não se esqueça que fomos queimadas vivas durante muitos anos.
É engraçado falares disso porque recentemente saiu um livro sobre as mulheres inglesas que, nos inícios do século XX, lutaram contra o direito de voto às próprias mulheres. Havia mulheres anti-sufragistas! (risos)
Mas eu posso compreender isso porque hoje existem movimentos de mulheres contra a legalização do aborto, por exemplo, e contra tantas coisas que dariam benefícios às mulheres.
Tu és pró-escolha em relação ao aborto.
Claro. Meu Deus, só pode! Sou pela liberdade em qualquer instância.
Mas não achas que, no caso do aborto, existe o problema adicional de existir ali uma outra vida humana?
Eu acho que há o conflito de existir uma vida humana e o conflito de estragar duas. Não estou nem discutindo a vida humana, estou discutindo um aborto feito clandestinamente, hipocritamente, não reconhecido pela sociedade. Eu não estou discutindo se o aborto vai ou não ser feito, estou discutindo que o aborto já é feito numa grande escala. Estou a falar das mulheres que morrem por minuto. Essa é a discussão, não é se é possível fazer. E quando me falam de pecado, eu digo que pecado é deixar essas mulheres morrer clandestinamente.
Então tu és uma liberal em termos de costumes: aborto, casamento gay, etc.
Bom, mas nem poderia ser de outra forma. Sou uma pessoa que defende a liberdade acima de tudo.
Em todos os capítulos? Por exemplo, és favor da poligamia? Eu gostava de experimentar. (risos)
Você pode entrar para a seita dos Mormons e ter 40 esposas! (risos)
Já te imaginaste numa relação dessas?
Eu com 40 esposas?
Não; tu como uma das quarenta.
(risos) Puxa, imagina naquela época dos haréns árabes. Aquilo ali devia ser maravilhoso: as cortinas, as almofadas, aquele clima fantástico. Você nunca olhou aqueles quadros maravilhosos do Louvre?
Mas será mesmo possível amar duas, ou mais, pessoas ao mesmo tempo?
Que se ame mais do que uma pessoa, eu acho super-possível.
Já aconteceu contigo?
Ainda não, mas quem sabe um dia.
Mas isso é uma grande notícia: saber que estás aberta a qualquer possibilidade.
Se eu não estiver aberta é porque estou morta.
Entrevista a Bruna Lombardi para a revisa 'GQ'.
17 de Novembro, Folha On Line
ELEGY, de Isabel Coixet, tinha tudo para me desagradar profundamente. Razão lógica: sou leitor religioso de Philip Roth e The Dying Animal, novela que inspirou o filme, é um dos grandes livros dos últimos anos. Mentes simples dirão que The Dying Animal é mais um capítulo nas desventuras de David Kepesh, o intelectual nova-iorquino que tem recorrente fixação por seios femininos e restantes intimidades do género.
Mentira. The Dying Animal é uma poderosa reflexão sobre a consciência de um homem. Até quando iremos fugir dos nossos atos e dos nossos afetos? E seremos sempre responsáveis pelas pessoas que cativamos?
O livro termina com essas questões e nunca sabemos se David Kepesh, conquistando o seu gigantesco egoísmo, irá receber o destino e a vida de Consuela, a aluna doente que ele, em tempos, seduziu. E que, apesar de tudo, ama ainda.
Isabel Coixet não permite que o seu Elegy termine com a interrogação do livro e redime David Kepesh, que recebe Consuela nos braços. Uma traição ao livro? De certa forma. Mas tolero o ato porque todo o filme, brilhantemente dirigido por Coixet, é tocado por uma progressiva e dolorosa expiação. Esse percurso é prodigiosamente encenado por Ben Kingsley (como David), tendo em Penélope Cruz (como Consuela) o objeto do seu demencial afeto.
Quando me disseram que Ben Kingsley e Penélope Cruz seriam o par romântico (e sexual) de uma adaptação cinematográfica de Philip Roth, não parei de rir. Durante o filme, não ri uma única vez - aqui.
15 de Novembro, Expresso
DURANTE MESES, acompanhei a histeria da Europa por Obama. E, no meu espanto, tentei vislumbrar os motivos da paixão nas promessas do homem. Não encontrei nada. Internamente, Obama surgia, no limite, como um social-democrata moderado; e, externamente, como uma "pomba musculada", disposto a lidar duramente com o Afeganistão, o Irão e o Paquistão. Como explicar a loucura generalizada?
Numa palavra, com a raça. Obama é preto e as esquerdas da Europa, em atitude profundamente racista, entenderam que a pigmentação da pele fazia toda a diferença. As esquerdas que embarcaram histericamente por Obama fazem lembrar os antigos fazendeiros que achavam imensa graça quando viam um escravo devidamente vestido e calçado. O racismo invertido não deixa de ser uma forma de racismo.
Resta saber se a paixão por Obama vai durar. A resposta é óbvia, porque existe um óbvio paradoxo com a eleição do homem: depois de 1989, quando o Muro caiu na cabeça das esquerdas neolíticas, o antiamericanismo converteu-se no alimento principal dos órfãos de Moscovo. Os mesmos órfãos que, agora, levados por uma forma invertida de racismo, desataram a aplaudir o novo presidente americano. Para eles, Obama é uma espécie de dr. Louçã, embora mais alto, mais elegante e, como diria o sr. Berlusconi, ligeiramente mais bronzeado. Sem a América para insultar, o que será feito desta gente nos próximos anos?
Obviamente, a desilusão será uma questão de meses, não de anos. Quando Obama começar a lidar com o mundo real, o antiamericanismo regressa e, com ele, regressa tudo ao asilo psiquiátrico - aqui.
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Para os interessados, aviso que a segunda edição, revista e aumentada, do Avenida Paulista, já está na loja virtual das Quasi - ou no dealer do costume. Diferenças em relação à primeira edição? Assim de cabeça, sou capaz de jurar que existem 26 crónicas novas e uma foto do autor, em cinta portátil, para fazerem tiro ao alvo. Enjoy.