O CHEQUE DO CAMARADA
10 Março 2000 / O Independente

SE EXISTE um fundo moral comum ao género humano - e eu acredito que existe -, nenhum Português ficou indiferente com a tragédia de Moçambique: terras devastadas, milhares de mortos, uma mãe a parir no ramo de uma árvore. Estes cenários de desgraça humana chegaram nos últimos dias e é provável que os Portugueses tenham contribuído como puderam para ajudar os Moçambicanos. Sobretudo, devem ter ajudado anonimamente, sentindo dentro deles esse imperativo moral que não precisa de publicidade: o imperativo de que falava Kant e, depois dele, quase todos os herdeiros do Iluminismo europeu. Se o género humano é indivisível, se todos os Homens são iguais, se todos eles merecem um mínimo de humanidade, se todos eles condenam a desgraça e reconhecem a infâmia, é provável que o meu País tenha feito o possível e o impossível, dentro do possível, para ajudar.

FATALMENTE, José Saramago não pensa da mesma forma. Em carta publicada num diário nacional, o camarada José começa por vergastar a «comunidade internacional» - essa mesma que faz guerras com prontidão mas se mostra muda e queda ante a catástrofe de um Povo. Não vale a pena notar, ou fazer notar, que as missões de salvamento em Moçambique não se fazem da noite para o dia e que nenhum país, grupo ou instituição pode simplesmente levar a ordem e a paz no espaço de breves horas. Esta clamorosa evidência, como é natural, não entra na cabeça de Saramago. E não entra porque a cabeça de um comunista sempre funcionou com uma notável leviandade, apoiada em vulgatas e soluções de cartilha. Saramago pensa assim: se existem maus, ou se existe um Mal, cabe aos bons fazer reinar o Bem de forma imediata, ou seja, revolucionária. Que a realidade complexa da vida seja diferente das simplificações grosseiras a que Saramago ainda se entrega, pouco importa. A ligeireza teórica, que em tempos recuados legitimou a tirania e o crime, ainda não descolou totalmente da cabeça do camarada José.

COMO não descolou a sua pretensa superioridade moral. Saramago pensa, ou acredita, que ele, e só ele, sente o drama moçambicano com as pupilas pasmosamente esbugalhadas. Só ele, como comunista e homem de esquerda, pode compreender genuinamente a dor do seu semelhante. Em Portugal, a colectividade prefere sacar do bolso «o lencinho para secar a lágrima fácil». Mas ele, Saramago, o Nobel, o humanista, o homem que grita, chora e se esgadanha com o sentir fundo e profundo de um Povo, pelo contrário: ele não puxa do lenço, puxa do cheque. E não se limita a exercícios tão prosaicos e burgueses: ele puxa do cheque e, atenção selvagens, resolve publicitar o gesto com a fanfarra toda atrás. Para que Portugal saiba, e saiba bem, quem ele é, como ele sente, como ele actua quando sente o que sente. Eu direi mais: para que Portugal tome contacto com o Supremo Bem, reconhecendo o abismo - negro e incomensurável abismo - que o separa ainda do camarada Nobel. Nós, cá em baixo, puxamos do lenço e damos corda à hipocrisia. Ele, lá de cima, na ilha do altruísmo, decide julgar as nossas consciências, atreve-se a tecer algumas considerações sobre elas e no fim, ao som da orquestra, resolve atirar com o cheque à cara da cristandade. Como se a desgraça de Moçambique fosse o cenário de uma das suas ficções. E ele, o cavaleiro-andante delas.

JOSÉ SARAMAGO: o nosso Nobel, o nosso génio, o nosso grilo privado.

 

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In Vida Independente: 1998 - 2003 (O Independente, 2004)

 

 

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