- [JPC] Antes de começar esta entrevista, sei que tem andado a dar muitas entrevistas ultimamente, com a reedição das suas 'Histórias' em CD. Isso é bom sinal.
[RS] É bom sinal, mas também é cansativo.
- Então comecemos sem demoras. O Raul chega aos 80 anos em 2009. É melhor ou pior do que aquilo que tinha imaginado?
Acho que é igual. Ou seja, eu queria ter uma carreira bonita, boa, e penso que consegui em parte. O que não é fácil, porque a carreira de um actor é muito longa, leva muito tempo a construir. Começamos a fazer de netos e terminamos a fazer de avós.
- Bom, mas eu falava da sua vida, não da sua carreira.
Mas a minha vida está completamente ligada à minha carreira. E, em termos de carreira, acho que consegui ser sobretudo um actor, e não apenas um cómico. Ou seja, consegui provar o que realmente sou, que é um actor, e não apenas um comediante.
- Mas não acha que um actor cómico é capaz de fazer qualquer papel?
Os cómicos chegam facilmente ao drama, sim. Os actores dramáticos raramente chegam à comédia. Porque um comediante já nasce assim. É genético. Um dia perguntaram-me se fazer rir era difícil e eu disse: não, é fácil.
- Mas sem palavrões. Sei que não gosta muito deles.
Não gosto de palavrões para fazer rir. Mas, veja só, agora estou a fazer um filme, América, que só tem palavrões. Só que isso faz todo o sentido naquele filme, naquele ambiente. O que não gosto francamente é que uma pessoa queira fazer rir com palavrões. O humor é uma coisa tão importante, tão importante…
- O palavrão é um esquema fácil, um escape.
Muito pior: é vagabundo.
- Mas sabe que eu nasci no Porto e lá o palavrão é uma expressão de afecto.
Mas isso é outra conversa. Aí já não é palavrão e não tem nada a ver com o que estamos a conversar. Quando as pessoas dizem: o Quim Barreiros é pimba, eu discordo. Pimbas são os que o imitam a ele. O Quim Barreiros é autêntico e é do melhor que há.
- Muito bem: não gosta de palavrões para fazer rir. Mas na infância descobriu que um 'foda-xe!', em frente aos amigos do seu pai, teve óptimos resultados. Como foi a sua infância?
Foi uma infância de bairro, uma infância bonita. Sabe, eu cresci numa cidade musical. Uma cidade onde não havia automóveis, ao contrário de hoje, onde o som omnipresente é o do motor. Naquela altura eram pregões, eram as pessoas que falavam e se ouviam. Agora ninguém se ouve. Portanto, lembro-me das conversas, dos gritos das varinas da Madragoa, como se lê na poesia do António Botto.
- Foi uma infância feliz mesmo com a morte da sua mãe poucos dias depois do seu nascimento?
Sim, mesmo com a morte da minha mãe. Porque eu tinha uma madrasta que para mim era a minha mãe e, portanto, complementava essa falta.
- Li na sua biografia ['Raul Solnado: A Vida Não se Perdeu', de Leonor Xavier] que aprendeu a representar nos bastidores do teatro, a olhar para os outros actores, a seguir-lhes os gestos. E até havia uma frase da Lucinda Simões em que ela dizia: 'Actuar é falar alto, claro e não deixar cair os finais'. Ainda é válido como conselho?
(risos) Exactamente. Falar alto, claro e não deixar cair os finais. Veja o Marcelo Rebelo de Sousa, que come as palavras. Ele é um grande comunicador, sem dúvida, mas tem uma dicção completamente falhada. Não sabe falar claro, não projecta os finais.
- O Raul nunca se sentiu tentado pelo método Stanislavski para construir as suas personagens?
Não. Eu estive no Conservatório uma vez. Mas aquilo era tão chato, tão chato…
- Então como constrói normalmente as suas personagens?
Intuitivamente. Só no filme Dom Roberto é que me recordo de ter andado atrás de um tipo durante um dia para ver como ele caminhava na Feira da Ladra. De resto, dão-me uma peça ou um filme, eu leio e perguntam-me: quer fazer? E eu vejo: se sei que consigo, faço; se sei que não consigo, não faço. Sempre intuitivamente. Por exemplo, este filme que estou a fazer agora: eu li as minhas partes, não gostei e veio cá o realizador falar comigo. Que me convenceu a reler tudo. E aí fiquei agarrado: é um papel fortíssimo, do caraças! Mas há coisas que eu sei que não consigo fazer.
- Por exemplo?
Uma tragédia de Shakespeare. Para mim a tragédia já é uma coisa muito especial e eu não chego lá.
- Outra passagem da sua biografia é aquela onde fala da hierarquia que existia entre os actores.
As hierarquias estavam em todas as classes.
- Lamenta o facto de se ter perdido isso?
Muito. Porque se perderam as grandes referências.
- No início perguntei-lhe se chegar aos 80 era pior ou melhor do que tinha imaginado. Respondeu-me com a carreira. Mas eu queria era que falasse da vidinha.
Respondo-lhe da mesma forma: chegar aos 80 é igual ao que eu imaginava e ao que eu sonhei. Sonhei ser um velho tranquilo, doce, tolerante, com alguma cultura. Acho que consegui. E com respeito. As pessoas respeitam-me. Quando me encontram na rua, falam-me com uma grande delicadeza, tocam-me devagarinho... Sim, porque quando era mais novo e muito popular, eram murros nas costas, lambidelas na cara (risos).
- Um dos aspectos centrais da sua carreira é a profunda ligação ao Brasil. Isso não era fácil.
Não, nunca foi fácil. E ainda não é. Há uma espécie de muro de cimento a meio do oceano, muito largo, que nos divide. A gente não se entende e imagino, sem ter a certeza, que o programa escolar brasileiro continua a considerar-nos como colonizadores. Depois há um problema grave que não acontece com a Espanha e a América hispânica, onde a língua é comum: nós entendemos muito melhor os brasileiros do que eles nos entendem a nós. Ou seja, há uma ponte cultural que só tem um sentido. A culpa não é deles, é da língua: não temos os mesmos sons. Quem se safa no Brasil não é pela língua.
- É pela escrita. Veja o Pessoa, o Saramago.
Sim, pela escrita. Também pela música. Mas a falar, não. O Presidente da República foi ao Brasil e na televisão apareceu com legendas. (risos)
- O cinema português ainda hoje é legendado no Brasil.
Mas o problema do cinema português é outro. África não nos compra nada porque não lhe interessa: ainda somos colonizadores recentes, há grandes mágoas e também pouco dinheiro. O Brasil também não nos compra porque não entende. E nem tem necessidade disso.
- Uma curiosidade: li na sua biografia que só teve duas experiências de embriaguez em 80 anos. É obra!
(risos) Tive quatro experiências.
- Ah, já vão em quatro?
Sim, a última foi há dois anos.
- E pode contar?
Bom, a primeira foi no Rio de Janeiro. Eu estava com saudades de Portugal. Não, saudades, não; eram mais ciúmes, porque para mim as saudades não existem. Tinha ciúmes disto tudo que existe cá. E pronto: embebedei-me muito porque fui a um aniversário, eles começaram a cantar fados e eu comecei a chorar, a chorar. Apanhei uma daquelas bebedeiras de sarjeta.
- São as únicas que valem a pena, o resto é pose social.
Sim, é verdade, o resto é conversa. A última que apanhei foi há dois anos, estava num bar com um amigo meu, meados de Agosto, onze da manhã, um calor tremendo, éramos três, e bebemos três garrafas de champanhe. Fui para a cama de gatas e dormi quatro horas. Aliás, fomos todos de gatas, ninguém escapou.
- E então chegamos à reedição da sua 'História da Guerra', um clássico do non sense nacional. Acha que o non sense sobrevive melhor porque é intemporal?
Não creio que o sucesso da 'História da Guerra' tenha que ver com o facto do non sense ser intemporal. Os temas é que são intemporais, como a guerra, a vida, é apenas isso. Agora, o riso provocado na altura era muito subversivo, porque tudo o que se dizia era político. Sabe que eu e o Camilo de Oliveira fomos os dois julgados por dizer coisas fora da censura?
- A sério?
E fomos absolvidos. Mais tarde encontrei o juíz, a gente cumprimentou-se e ele disse-me que nunca ficou tão envergonhado na qualidade de juíz como naquela ocasião. (risos) O riso hoje é mais difícil. Antes era mais fácil rir, porque tudo era política, as pessoas adoravam ler nas entrelinhas.
- Ainda acha que todas as guerras são inúteis? Pergunto isto porque a guerra contra os nazis não foi inútil.
Aquilo que eu digo é que a guerra é sempre nojenta!
- Sempre? Não há lutas nobres?
Não, é sempre uma tragédia nojenta, fruto da ignorância. Veja a Europa: tirando certas zonas com razões históricas muito profundas, a Europa não quer guerras. As pessoas estão mais cultas. A inteligência vai por cima de tudo isso, a inteligência é um voo sobre a guerra.
- Mas a Alemanha também era um país culto e foi o que se viu.
Não, de maneira nenhuma.
- Não?
Não, não era um país culto. Se fosse, os alemães não seguiriam aquele palhaço, um 'clown' reles. Isso não quer dizer que não existisse uma elite cultural. O Paraguai tem uma elite cultural, Angola também tem uma elite cultural, todos os países têm. Agora, naquele momento, meteram o pé na poça, e Portugal também, o que não admira: antes do 25 de Abril havia 30.000 alunos; agora temos 300.000.
- O seu sucesso foi um fenómeno que veio devagar, foi uma coisa construída com segurança, paulatinamente. Acha que o sucesso súbito, e estou a pensar sobretudo nestes sucessos instantâneos que hoje se produzem na TV, pode ser destrutivo?
Pode ser perigoso. Porque o sucesso imediato são grandes bebedeiras que a gente apanha. E também posso confessar que naquela altura embebedei-me, mas não muito. Ou seja, estava bêbado, mas ainda estava na fase de meio-consciente. Ainda sabia o que me estava a acontecer.
- Controlou, portanto.
Sim, consegui controlar, tanto assim que ao fim de três anos a fazer a 'História da Guerra', não bebi mais. Isto é, não fui na bebedeira, o meu projecto era outro, o meu projecto era ser actor! Aquilo que eu fazia era uma personagem, aquela personagem que no Brasil alguém chamou de 'homem de perplexo'; era uma personagem que falava de uma certa maneira, gesticulava de uma certa maneira. Então quis fugir daquela personagem, mas era muito difícil, porque as pessoas queriam-na. Lembro-me de ter feito uma peça, intitulada 'Vamos contar mentiras', uma comédia genial, isto em 1964, e apesar da peça ser divertidíssima, as pessoas continuavam à espera que eu contasse a 'História' no fim e eu tinha de contar! Um dia até quiseram virar a carrinha, apedrejaram-na e chamaram-nos filhos da puta, vigaristas e não sei que mais. Foi muito complicado: eu a combater o 'homem perplexo' e o público a exigi-lo. Eu era refém daquela personagem.
- É verdade que houve uma mulher que morreu de tanto rir no Variedades?
É verdade, sim.
- Nunca sentiu sentimentos de culpa por isso?
Não. A gente sente alguma culpa, mas aquilo foi um acidente, ela sufocou com certeza. O João sabe quanto tempo uma pessoa ri à gargalhada, em média, numa peça cómica? Não é sorrir, não é rir um bocadinho; é desatar à gargalhada?
- Não faço ideia.
Pois uma vez eu pedi para cronometrarem as gargalhadas, as explosões de riso. Aquilo tudo junto dava 5 ou 6 minutos. É uma violência, é uma brutalidade! Recordo uma vez em que o pano caiu depois da peça e ouviu-se uma senhora a dizer na plateia: 'Até que enfim!' Era um suspiro de alívio porque aquilo, fisicamente, é uma violência.
- Chegou a ver o cadáver da senhora que morreu de tanto rir?
Não, vi uma movimentação no balcão, mas não sabia o motivo, só me contaram no dia seguinte. Mas nem tudo foi mau: também nasceu uma criança em Luanda. A mãe riu tanto que lhe rebentaram as águas.
- E, no entanto, a coisa mais importante da sua carreira foi o televisivo 'Zip Zip'. Isto são palavras suas numa entrevista ao jornalista Manuel Vieira.
Pode ter sido. Eu acho que houve muitas coisas importantes na minha vida e digo isto com vaidade, evidentemente, não posso deixar de ter vaidade. Mas o 'Zip Zip' foi especialmente importante porque foi o princípio da Revolução, o embrião da Revolução. Aquilo era uma subversão absoluta e generalizada. Além disso, mostrámos também pessoas importantes da nossa cultura.
- O que sente quando relembra esses tempos do 'Zip Zip' e vê hoje um dos seus parceiros de programa, Carlos Cruz, acusado no processo Casa Pia?
Digo-lhe o que disse no tribunal, com ele ao meu lado: eu não acredito que o Carlos Cruz tenha feito estes crimes. Não por razões intuitivas ou de afecto, mas por razões racionais. Carlos Cruz é e foi um homem de grande salubridade, amado pelo público português, um grande homem de televisão, rico, bem instalado na vida. Ele jamais poderia pôr a cabeça no cepo daquela forma.
- Muito bem, falemos então de mulheres. A primeira mãe dos seus filhos era brasileira. A segunda era dinamarquesa. O que é que tem contra as portuguesas?
Nada. Pura casualidade.
- Mas acha, como dizia o George Steiner recentemente, que o amor é diferente quando as culturas são diferentes?
A linguagem do amor é igual em toda a parte. Só as culturas são diferentes e isso às vezes é mais complicado. Não temos a mesma infância, a mesma adolescência, não temos as mesmas raízes, as mesmas referências. E, portanto, temos dificuldade em conversar. Temos de conversar pela rama. Mas o resto é universal.
- Outra curiosidade que encontrei na sua biografia foi o gosto por retiros espirituais com os franciscanos.
É verdade. Eu fiz uma tournée a trabalhar para os militares em África e nessa altura estive um mês, todos os dias, a fazer duas ou três sessões. Ou seja, vi a guerra na primeira fila, talvez no camarote. Fiquei muito perturbado com tudo aquilo. Resolvi então ir ter com os franciscanos e fui orgulhosamente recebido por eles. Fez-me muito bem.
- O que é que ganhou com essa experiência?
Calma, tranquilidade.
- Também fez psicanálise.
Fiz.
- E resultou?
Muito.
- Porquê?
Porque encontrei-me. Encontrei o que sou, porque eu não sabia quem era e isso era uma fonte de ansiedade, de inquietação. Não me sentia bem comigo próprio, não me sentia bem na minha casca. Não sei por que razão.
- Mas não acha que se sentisse bem na sua casca, provavelmente não teria sido actor e cómico?
Mas eu estou a falar da minha vida, não estou a falar da profissão.
- Claro. Mas o grande humor normalmente nasce da grande infelicidade.
Sim, talvez. O grande humor é também uma grande tristeza porque o humorista vê tudo por uma lupa muito grande; ele é o primeiro a ver as coisas, os ridículos, as catástrofes. É como um flash. E isso incomoda muito. De facto, é muito raro ver um humorista feliz. Eu sou muito amigo do Millôr Fernandes, que para mim é o melhor humorista que existe. É a pessoa mais interessante que eu conheci na minha vida. Eu costumo dizer que as mulheres têm várias camadas de qualificação: as feias como o caraças; depois as bonitas; as lindas; as deslumbrantes – e depois há o topo de gama, que são as interessantes. E, para mim, o Millôr Fernandes é a pessoa mais interessante que conheci na minha vida porque tem uma cultura geral rara. O que torna uma pessoa chata é a cultura funda num tema, isso é chatíssimo. O Millôr, pelo contrário, é de uma abertura absoluta, fala de tudo o que você imagine. Só que não diz uma graça. Portanto, quem pensa que vai rir com ele está completamente enganado. E é um génio do humor!
- Por falar em falta de riso: esteve na Roménia ainda durante o regime de Ceausescu.
Estive. Aquilo era uma tristeza muito grande.
- Sente que isso o vacinou contra qualquer entusiasmo marxista?
Não, penso é que potenciou a minha vacina. Recordo-me que o director do hotel veio ter comigo e disse-me assim: desculpe, você é português? É que nunca vi aqui um português. Você é comunista? E eu respondi: 'Não, sou capitalista, senão não estava aqui a passar férias'. Ele riu-se imenso. Depois vinha tomar café comigo e apresentou-me a um actor que estava muito triste porque tinha levado 20 anos para comprar um automóvel, o que era óptimo, porque ele tinha uma namorada longe e o carro permitia-lhe ir ter com a namorada, mas de repente foi despedido pelo director de serviços do teatro. E eu pensava: então isto é assim? Esta arbitrariedade? O director do teatro não percebia nada de teatro, era um agente político, completamente comunista, que dispunha assim da vida das pessoas.
- Tem medo da morte?
Não. Só tenho muita pena de deixar os meus amigos, de deixar de ver televisão, o telejornal, a minha família. Mais nada.
- E o que gostaria que dissessem de si depois da despedida?
(longa pausa) Que fui um cidadão. Que fui um homem que lutou pela cidadania.